• "Salmo 91": uma prece manchada de sangue

    "Salmo 91", do Cênicas Cia. de Repertório (PE), no "Trema! Festival". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação"Salmo 91", do Cênicas Cia. de Repertório (PE), no "Trema! Festival". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação

    Salmo 91,
    da Cênicas Cia. de Repertório (PE), é um espetáculo que gera revolta. Revolta, angústia, nó na garganta e uma sensação de impotência. Como parte da programação do Trema! Festival, na sexta (12/5), o espetáculo levou ao Espaço Cênicas uma reflexão acerca de uma sociedade que repete, como mantra, “bandido bom é bandido morto”, nos levando a uma colisão direta conosco e com a sociedade que nos cerca.

    “Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido. (…) Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à sua tenda”. Eis alguns versículos do Salmo 91, da Bíblia, usado por muitos cristãos como uma prece de proteção. A primeira e última cena estão intimamente ligadas a este trecho, numa introdução e desfecho dramáticos, trágicos. Um presidiário martiriza-se e questiona-se sobre o tal salmo que sua mãe pediu para ele ler, mas também berra que não, não foram somente 111 mortos caídos ao seu lado, foram mais de 200, incontáveis invólucros, mas ele sobrevivera (numa referência ao massacre de Carandiru, no qual a peça se baseia).

    Se em Ópera(também apresentado na sexta, 12/5), o fio condutor é o amor, em Salmo 91 o sangue é o protagonista. Em cada apresentação dos personagens, os prisioneiros contavam suas histórias, faziam a plateia ao redor sorrir, gargalhar, ou simplesmente ficar calada mediante a escuridão de uma solitária, conhecendo a história de um homem que – passando 120 dias nela – comeu suas próprias fezes. Era uma escuridão tão opressora, tão palpável (a única luz vinha da vela do homem), que clamar pela luz e pelo fim da cena não se tornou um absurdo. Em cada história dos personagens, melavam-se de sangue, pelos seus crimes, ou pelas suas próprias consciências.

    Novamente, “bandido bom é bandido morto” é o que escutamos de civis, políticos, vizinhos e amigos. Que grande hipocrisia. Observando os centenas que morreram no Carandiru, quais bandidos queremos ver mortos? Quando a cena final foi encenada, as luzes piscando velozmente, os atores gritando, despindo-se e jogando-se no chão, enxergamos ali o desejo mais secreto da maioria dos cidadãos: que bandidos, criminosos, ladrões, sejam mortos. O chão vermelho cheio de sangue, igualmente como seus corpos, parece ser a única cor vermelha que a sociedade brasileira quer ver. Miserere nobis!