• 1917: o ano zero da Revolução Russa

    Aleksandr Rodchenko, 1924. Foto: ReproduçãoAleksandr Rodchenko, 1924. Foto: Reprodução

      

    O mar da história
    é agitado.
    As ameaças
    e as guerras
    havemos de atravessá-las,
    rompê-las ao meio,
    cortando-as
    como uma quilha corta
    as ondas.*

     *E então, que quereis? – do poeta russo Vladimir Maiakóvski, escrito em 1927


    Em 31 de agostode 2016, Dilma Rousseff era definitivamente afastada da presidência do Brasil por um controverso processo deimpeachment. Em seu discurso de despedida, a primeira mulher eleita para o cargo máximo do país citou trechos do poemaE então, que quereis? – do russo Vladimir Maiakóvski. A força das palavras traduz, além do ideal de resiliência descrito pelo poeta, o alcance do contexto histórico, político e social da Revolução Russa, o levante que derrubou o regime czarista e que neste 2017 atinge seu primeiro centenário.

    As raízes da Revolução Russa, também conhecida como Revolução de Outubro, fincam-se em 1905, quando houve uma primeira rebelião contra o czar Nicolau II. Absolutista e concentrador, ele comandava o país de dimensão continental como um déspota. Era alvo da ira dos camponeses e trabalhadores rurais (osmujiks a quem tanto Liévin [o personagem] admira emAnna Karenina, de Liev Tolstói) e dos operários urbanos, sendo extremamente violento na repressão: a guarda real chacinou mais de mil pessoas que protestavam em frente ao palácio de inverno de São Petersburgo, no episódio conhecido como Domingo Sangrento.

    Decorreram 12 anos de impostos elevados, pobreza generalizada e insatisfação mesmo entre os nobres latifundiários. A entrada da Rússia na I Guerra Mundial, ao lado da França e do Reino Unido na Tríplice Entente, aumentou a fúria contra Nicolau II, bem como as dívidas do país. Em fevereiro de 1917 (no calendário juliano dos russos; pois, no calendário gregoriano ocidental, já se tratava de março), o czar foi deposto e imediatamente fuzilado ao lado da mulher e dos filhos. Iniciava-se a primeira fase revolucionária: assumia um governo provisório, liderado pelo príncipe Georgy Lvov e por Alexander Kerenski, como ministro da guerra e formado por deputados da Duma, o parlamento russo. Outro comitê, o Soviete de Petrogrado, havia surgido da mobilização de trabalhadores, militares e socialistas.

    Ao longo de sete meses, maximizou-se a tensão entre essas duas instâncias políticas. Com a Revolução de Outubro, o Partido Operário Social-Democrata Russo – POSDR assume o poder. Outrora dividido entre mencheviques, liderados por Gueorgui Plekhanov, e os bolcheviques, cujo horizonte era determinado por Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lênin, o POSDR passou à proa das ações políticas e militares do país já sob comando bolchevique. Lênin se tornou o primeiro presidente do Conselho de Comissários do Povo da República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Entre novembro de 1917 e janeiro de 1924, foi o líder supremo do país que, em 1922, ajudou a renomear: nascia a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

    O que foi feito dos ideais revolucionários e da própria URSS durante o governo de Lênin e sob a égide de Josef Stálin (secretário-geral do Partido Comunista e do Comitê Central entre 1922 e 1953) é alvo, sobretudo um século depois, de incontáveis estudos e análises críticas. Para o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917–2012) emA era dos extremos – O breve século XX 1914–1991, a revolução “foi feita não para proporcionar liberdade e socialismo à Rússia, mas para trazer a revolução do proletariado mundial. Na mente de Lênin e de seus camaradas, a vitória bolchevique na Rússia era basicamente uma batalha na campanha para alcançar a vitória do bolchevismo numa escala global mais ampla, e dificilmente justificável a não ser como tal”.

    O bolchevismo não se replicou no mundo inteiro. Até hoje, há quem admire com fervor e há quem rejeite com ojeriza a Revolução Russa e seu legado socialista. Suas ramificações artísticas, contudo, vingaram e se alastraram em acordes, imagens, versos… Vão e voltam como o mar e suas ondas cortadas pela quilha de Maiakóvski.

    Leia especial na íntegra na versão impressa da Continente de maio 2017 (n. 197)

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    LEIA MAIS:

    Literatura: entusiasmo e melancolia

    http://www.revistacontinente.com.br/secoes/20125-literatura-entusiasmo-e-melancolia.html

    Arte: da vanguarda ao Realismo Socialista

    http://www.revistacontinente.com.br/secoes/20126-arte-da-vanguarda-ao-realismo-socialista.html

    Música: contra todo subjetivismo

    http://www.revistacontinente.com.br/secoes/20127-m%C3%BAsica-contra-todo-subjetivismo.html


    Teatro: palco manchado de sangue
    http://www.revistacontinente.com.br/secoes/20128-teatro-palco-manchado-de-sangue.html

    Cinema: das escadarias de Odessa para o mundo

    http://www.revistacontinente.com.br/secoes/20129-cinema-das-escadarias-de-odessa-para-o-mundo.html

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    EXTRAS:

    Leia também nossa edição de 2009 sobre a Revolução Cubana e suas consequências para a arte:
    https://issuu.com/revistacontinente/docs/096_-_dez_08_-_cuba



  • Aos leitores - editorial #197 (maio 2017)

    Alexander Deineka/ReproduçãoAlexander Deineka/Reprodução

     

    Há 100 anos, insurgia-se uma revolução na Rússia que levaria ao fim o regime czarista, com a deposição e fuzilamento do czar e sua família, e a chegada ao poder dos bolcheviques, liderados por Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lênin, em outubro de 1917. Não demorou para o país ser rebatizado de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS e se tornar protagonista nas disputas mundiais. Para os revolucionários, esse era apenas o primeiro passo no processo que levaria o bolchevismo a todo o mundo.


    Os fatos mostram que essas expectativas não se confirmaram. Mas é inegável o papel central da Revolução de Outubro nos acontecimentos que se seguiram (Guerra Fria, Revolução Cubana, Guerra da Coreia…). Essa forte influência ultrapassou as barreiras da política e reverberou nas artes. Maiakóvski, Malevitch, Stravinski, Stanislavski e Eisenstein são alguns dos artistas cujas obras refletem esse contexto. A arte russa foi marcada pela revolução – seja pela adesão ou negação – e este é o ponto de partida da nossa capa.


    Como coloca Fábio Andrade, em seu artigo, a despeito do fracasso das grandes revoluções, o homem contemporâneo segue precisando delas, mas, agora, num contexto de micropolíticas. “Com o desgaste das grandes utopias, das promessas de um futuro de justiça social amplo e definitivo, encaramos a dura tarefa de pensar a mudança ao alcance da mão, perto de casa, na relação com o vizinho, com nossos filhos, nossos amantes. Uma revolução diária que parece ser o tom da literatura”, escreve.


    Além da discussão desse tema instigante, trazemos para nossas páginas a tradição das parteiras, cujo dia internacional é celebrado em 5 de maio. Viajamos por algumas regiões de Pernambuco e conversamos com mulheres que ajudam outras a trazerem seus filhos ao mundo através de um conhecimento ancestral, carregado de afeto, espiritualidade e rituais.


    Nesse olhar para o interior fomos também até a Usina Santa Terezinha, situada no município de Água Preta, na Mata Sul do estado, onde teve início, em 2015, o projeto Usina de Arte, que se propõe a mudar a paisagem dessa região, tomada pela cana-de-açúcar, através de residências artísticas, oficinas e incentivo à economia criativa.

  • Arte: da vanguarda ao Realismo Socialista

    Textovinculado aoespecial de capa da edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

    Cartaz de Rodchenko (reprodução)Cartaz de Rodchenko (reprodução)

    Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária”, era o lema do poeta Vladimir Maiakóvski durante os anos posteriores à Revolução de 1917, que deu fim ao regime czarista na Rússia, com a ascensão do Partido Operário Social-Democrata Russo, mais conhecido como Partido Bolchevique, liderado pelo revolucionário Vladimir Lênin. A expressão de Maiakóvski, que inspirou tantos artistas russos engajados com uma radical mudança do estado de coisas da Rússia naqueles anos iniciais do século passado, nos leva ainda a pensar em questões que ultrapassam barreiras geográficas e temporais: quais são os limites entre arte e política (se é que eles existem)? A política pode dizer qual é o lugar da arte? A arte pode abraçar a política, mais especificamente a política partidária? Uma arte política pode recair em uma estética panfletária?

    Certamente, os exemplos que a história das artes visuais na Rússia no início do século XX nos traz não respondem a essas perguntas de maneira categórica. Não nos dizem como a arte e a política devem se relacionar, mas como elas simplesmente se articularam naquele cenário social e político específico, hoje desintegrado. Comemorados neste ano de 2017, os 100 anos da Revolução de 1917 eram esperados por Mikhail Gorbachev, o último líder da União Soviética, com uma grande comemoração oficial – algo que não se concretizou. Em 25 de dezembro de 1991, Gorbachev anuncia, em rede nacional, o fim da União Soviética. Durante esses 69 anos de socialismo como política de estado, as artes visuais e decorativas foram do auge ao eclipse.



    Artistas visuais como Kazimir Malevich, Vladimir Tatlin, Aleksandr Rodchenko, Natalia Goncharova e Mikhail Larionov, embora não fossem exatamente revolucionários do Partido Bolchevique, acreditavam que a arte deveria acompanhar as mudanças revolucionárias que se davam na Rússia. “Mesmo antes da Revolução Russa, este círculo de artistas acreditava que a arte iria transformar o mundo. A Rússia foi um dos primeiros lugares a abraçar a arte moderna e esta arte moderna realmente acreditava que poderia mudar o mundo. Estes artistas achavam que a estética e a arte teriam um efeito tal, que poderiam transformar o observador e, por sua vez, o mundo”, explica Erika Zerwes, doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora da dissertação de mestradoA fotografia eloquente: arte e política em Aleksandr Rodchenko.

    A atuação política da maior parte desses artistas, como aponta Zerwes, não se daria por meio de armas, mas pela arte. Muitos deles participavam de comícios, no entanto. É importante ressaltar que, antes mesmo da Revolução Russa, também conhecida como Revolução de Outubro, os artistas visuais na Rússia czarista já estavam completamente imersos nos paradigmas estéticos modernos, participavam de grupos de artistas e faziam o que já se chamava, na Europa, de arte de vanguarda.

    Leia na íntegra na edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

  • Cinema: das escadarias de Odessa para o mundo

    Texto vinculado ao especial de capa da edição 197 da Revista Continente (maio 2017) 

     Pôster de "Encouraçado Potemkin", por Rodchenko, 1925Pôster de "Encouraçado Potemkin", por Rodchenko, 1925

     

    Não dá para comprar a revolução. Não dá para fazer a revolução.
    Só se pode estar na revolução. Está no seu espírito, ou não está em lugar nenhum.
    Ursula K. LeGuin, escritora de ficção científica norte-americana

     

    Poucos cenários são tão emblemáticos quanto a escadaria da cidade de Odessa, na Ucrânia, emO Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. Seus degraus são o palco que sedimentou uma imagem icônica do cinema. Não é apenas a narrativa de tensão de classe explícita que estabeleceu a perenidade do longa de 1925, mas como seu diretor usava ali uma técnica de montagem que ele mesmo teorizou. Depois daqueles tiros, aqueles corpos caindo, e todo um extrato da sociedade lutando contra uma história de opressão e tirania, nunca mais o cinema, nem o mundo, foi o mesmo.

    Embora a Revolução de 1917 e o que veio depois sejam divisores nas águas do cinema russo, é inegável que já existia um cinema produzido no país dos czares. Porém, a impressão que se tem hoje é de que o cinema passou a existir por lá só depois do surgimento da União Soviética, só com Eisenstein e Dziga Vertov. Como se sabe, uma profunda mudança na base da sociedade – política, economia – reverberará, é claro, nas outras estruturas, como a cultura.

    Fundados no final da primeira década do século XX, segundo o historiador do cinema David Parkinson, em seuHistory of film, os estúdios russos estavam “sob a censura czarista e tinham produção limitada de entretenimento medíocre e escapista”. O primeiro filme russo de que se tem notícia é o curtaStenka Razine, de Vladimir Romashkov, sobre um grupo de foras da lei vivendo às margens do Rio Volga. Poucos anos depois, o país já contava com mais de mil salas de exibição, mas a maior parte do que era exibido nas telas russas era de filmes importados.

    Foi nos anos entre a Revolução e a ascensão de Stálin que os cineastas soviéticos foram capazes de inventar uma nova linguagem que influencia a arte cinematográfica até hoje. Eisenstein e Vertov perceberam como ordenar e combinar imagens a fim de transmitir uma ideia, mais do que simplesmente contar uma história. Assim, perceberam que ritmo de montagem e música, por exemplo, seriam capazes de transmitir ou evidenciar emoções.

    Em 1919, a indústria cinematográfica foi nacionalizada; foi criada, também, a primeira escola de cinema do mundo, em Moscou, a VGIK, que começou treinando atores, e existe até hoje. A partir daí, a produção cinematográfica pôde ser usada como forma de educação e propaganda. O cinema deixa de lado a ortodoxia católica, que moldava a sociedade russa pré-revolucionária, para se estabelecer como parte da promessa comunista de um mundo melhor. As obras dessa época eram claramente propagandísticas, exaltando a coragem e força do povo soviético.

    Ainda assim, a produção cinematográfica foi capaz de levar questões políticas à estética. “Os cineastas russos participavam de um movimento político que acreditava na possibilidade de libertar a arte da condição de separação e isolamento na qual havia colocado a cultura ‘burguesa’ e de fazer dela um dos elementos propulsores da construção de uma nova sociedade”, conforme aponta o historiador italiano de cinema Antonio Costa, em seu livroCompreender o cinema.

    Leia na íntegra na edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

  • Literatura: entusiasmo e melancolia

    Textovinculado aoespecial de capa da edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

    Pintura "O triunfo do povo conquistador", de 1949, do artista ucraniano Mikhail KhmelkoPintura "O triunfo do povo conquistador", de 1949, do artista ucraniano Mikhail Khmelko

    Literatura e revolução.
    Essas duas palavras caminharam juntas por infernos provisórios e paraísos nunca alcançados. A associação entre elas se tornou um lugar-comum moderno e contemporâneo. Associação recente – é preciso dizer. Até o século XIX, que presenciou o surgimento e desenvolvimento do movimento romântico, a palavraliteratura estava sempre distante da palavrarevolução. Tinha as mãos sempre dadas à palavratradição. Mas foi no século da primeira grande revolução, no sentido político do termo, no século da Revolução Francesa, que o casamento das duas palavras se deu. Sobre os escombros do Velho Mundo, sobre as ruínas da nobreza, sobre os cadáveres dos déspotas, dos reis absolutistas, as duas se encontraram e foi amor à primeira vista. Desde então, caminham juntas em fórmulas e mesmo em linhas teóricas que veem a própria poesia como uma forma fundamental de revolução.

    Nossa idade moderna conheceu o uso popular e difuso da palavra revolução. O historiador espanhol Antonio Maravall, especialista na cultura do período barroco, afirmava que fora nesse momento específico que o termo ganhara um significado similar ao que tem hoje. Mudança profunda, capaz de alterar as bases, os alicerces do mundo que conhecemos. Se, na origem, o sentido de revolução política tinha um caráter pequeno-burguês, como ocorreu com a própria Revolução Francesa, pautada pelos valores filosóficos do iluminismo enciclopedista, outras possibilidades de “revolucionar” o mundo surgiram a partir desse mesmo princípio revolucionário liberal. No século XIX, o sentimento revolucionário vai tomando outros caminhos – exemplos disso foram o marxismo e o anarquismo, que são linhas de pensamento e ação políticos incontornáveis para se compreender o mundo ontem e hoje. E se deve a esse bloco de esquerda aquela que pode ser a revolução paradigmática dos tempos modernos: a Revolução Russa, de 1917.

    Leia na íntegra na edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

  • Música: contra todo subjetivismo

    Textovinculado aoespecial de capa da edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

    Stravinski. Foto: ReproduçãoStravinski. Foto: Reprodução

    No ambiente musical vigente durante o regime leninista (1917–1924), o único postulado estético que valia era o de evitar uma “arte burguesa”, ou seja, de cunho subjetivista, tal qual apreciada pela elite e pela nobreza defenestradas pelos mencheviques e sepultadas pelos bolcheviques. Dessa forma, um assumido romântico tardio como Sergei Rachmaninoff (1873–1943) deixou a Rússia logo após a Revolução, junto com mulher e filhas, e teve sua música banida em solo natal. O compositor deRapsódia sobre um tema de Paganini radicou-se nos Estados Unidos em 1918, após um ano de passagem pela Escandinávia, e, no ano em que faleceu, naturalizou-se no país que o acolheu e idolatrou.

    Por sua vez, Igor Stravinski (1882–1971) já vivia na Suíça em 1917, morou na França de 1920 a 1939 e emigrou para os Estados Unidos, onde também se naturalizou. Osbalés russos de Stravinski (O pássaro de fogo,Petrúchka eA sagração da primavera), apesar de inequivocamente russos no enredo, desenvolveram uma original sonoridade, gradualmente complexa na harmonia e agressiva no ritmo, não servindo para a corrente tradicionalista que dominou a estética musical soviética, nem para os futuristas. O autor daSinfonia dos Salmos voltou à Rússia, a convite de Nikita Khrushchev (1894–1971), para uma série de concertos com suas composições. Em pessoa, o então presidente soviético propôs-lhe voltar a fixar-se no país, sem obter aceite.

    Já Sergei Prokofiev (1891–1953) deixou a Rússia em 1918, não por discordâncias com o regime, mas para alavancar a carreira como pianista e não correr o risco de ser tolhido em sua atividade de compositor, tanto que, em 1935, depois de morar em diversas cidades norte-americanas e europeias, Prokofiev voltou a viver em seu país – e não escapou das pressões da União dos Compositores Soviéticos, sindicato oficial da classe fundado em 1932 e que sucedeu a Associação Russa dos Músicos Proletários (ARMP), existente desde 1925.

    Aleksandr Nevski – Batalha no gelo, de Serguei Prokofiev:



    Na Rússia leninista, experimentalismo e conservadorismo coexistiam relativamente bem. Havia espaço para o Movimento Proletkult(proletárskaya kultura, ou seja, cultura proletária), que fazia arte de linguagem mais acessível, embora sem propagandismo obrigatório do regime – e, por isso, não caiu por muito tempo nas graças daintelligentsiabolchevique (isto é, da elite intelectual governista). O Proletkultestabeleceu uma nova estética nas artes gráficas, não na música, mas agregou muitos artistas futuristas e fomentou a criatividade musical dessa vertente.

    O efervescente futurismo russo teve como experiência mais radical e bem-recepcionada pelas autoridades aSinfonia de sirenes de fábrica, de Arseni Avraamov (1886–1944), com seus cerca de 40 minutos de duração e um instrumental peculiar, que incluía – além das sirenes de fábrica – apitos de navio, buzinas de carros e ônibus, canhões, motores de hidroaviões, armas de artilharia e outros aparatos mecânicos e bélicos que se possa pensar.

    O ultraexperimentalismo daSinfonia de sirenes de fábricaantecipava a relevância que iria ser dada à matéria sonora bruta com a música concreta, em 1951, e só viria a ser superado em audácia (quando falamos da sinfonia como gênero de composição) pelaSinfonia de Luciano Berio (1925–2003), no final dos anos 1960. Se estreada 10 anos após sua concepção, a peça de Avraamov certamente sofreria censura da União dos Compositores, que veio a ditar a cartilha do realismo socialista para seus afiliados. Como foi estreada em 1922 – no porto de Baku, capital do Azerbaijão –, para celebrar o quinto aniversário da Revolução, passou incólume como obra exaltadora do proletariado.

    Leia na íntegra na edição 197 da Revista Continente (maio 2017)

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    EXTRA:

    Ouça exemplares da música russa do período

    Três cenas infantis
    (1926), de Alexander Mossolov





    Zavod(1927), de Alexander Mossolov




    Quatro anúncios de jornal(1926), de Alexander Mossolov




    Sinfonia n° 7 Lêningrado, de Dmitri Chostakóvitch




    Canto de amor e paz, de Cláudio Santoro




    Sinfonia n° 4 Da paz, de Cláudio Santoro