• "Kulturforum" discute a "documenta 14"

    Imagem da exposição da "documenta 14" em Atenas. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição da "documenta 14" em Atenas. Foto: Divulgação

    Nesta segunda (24/4), às 19h, a proposta curatorial da documenta 14 é tema do I Kulturforum “Sul como estado mental”, no Centro Cultural Brasil Alemanha, no Recife. Na ocasião, o curador e pesquisador Moacir dos Anjos, que foi à abertura da 14ª edição da exposição, na cidade de Atenas (Grécia), falará sobre sua experiência e sobre o conceito do evento este ano. Desta vez, a documenta está sendo realizada não apenas em Kassel, sua cidade (alemã) de origem, mas também em Atenas, símbolo das crises europeias e da luta recente pela democracia. A ideia da curadoria é friccionar limites e desafiar fronteiras, a partir do tema "Learning from Athens" ("Aprendendo com Atenas"). A jornalista e pesquisadora Bárbara Buril mediará o encontro, fazendo um preâmbulo desta que é considerada uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, realizada a cada cinco anos.

    O Kulturforum é um evento promovido mensalmente pelo CCBA para debater questões sociais contemporâneas.

    Serviço
    I Kulturforum “Sul como estado mental”
    Nesta segunda-feira, 24/4, às 19h
    No CCBA (Rua do Sossego, 364, Boa Vista, Recife)
    Aberto ao público
    Veja mais AQUI

  • Arte para tratar as mazelas do mundo

    Artista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara MarquesArtista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara Marques

    Em Kassel, na Alemanha, a documenta, uma das mais importantes instituições de arte contemporânea do mundo, reafirma, a partir deste sábado, 10 de junho, o seu compromisso de problematizar, através de uma curadoria eminentemente política, questões que atravessam as sociedades capitalistas neoliberais. Entre essas questões, estão a criminalização da pobreza, a empresa colonialista, a crise econômica, política e migratória, e a catástrofe ambiental. Na conferência de imprensa, na última quarta (7/6), no Kongress Palais, o diretor artístico da documenta, Adam Szymczyk, manifestou: “Não são apenas dinheiro e poder que devem comandar a nossa existência”, apontando para outras instâncias da vida que deveriam orientar a experiência do sujeito no mundo, incluindo a arte.

    Mas não só ele. Na conferência, o diretor de Programas Públicos da documenta, o filósofo Paul B. Preciado, cujo trabalho questiona os limites das definições binárias de gênero, foi enfático ao dizer que, se nós usarmos a opressão e a violência como formas de governo, não viveremos neste mundo por muito tempo. Preciado, que passou recentemente por um processo de transição de gênero, reforçou que não só ele está passando por um processo de transição: vive-se um momento de mudança na agenda neoliberal.

    Aliás, o que parece ficar claro é que a documentabusca, através de sua 14ª edição, questionar um modus operandi atual que parece nos ter sido imposto. Logo na abertura da conferência, o curador “at large” (“à distância”) Bonaventure Soh Bejeng Ndikung nos trouxe a possibilidade de retomar a nossa humanidade desafiando uma agenda que parece tirar do sujeito a possibilidade do cuidado de si e do outro. “A desorientação aponta para o esquecimento, para o descarte do convencional. Tem a ver com perder. Mas essa desobediência abre espaço para que aquilo que é subversivo possa emergir”, apontou.

    Apesar das ambiguidades do nosso tempo, a reinvenção diante de um cenário político e social que parece ter regredido é apresentada como uma possibilidade. Como defendeu Dieter Roelstraete, também curador da documenta 14, a arte parece ser vista pelos alemães como um modo de organizar uma realidade fragmentada e desorientadora: “A documenta, em si, surgiu em um pós-guerra marcado pelo fragmento. A Alemanha, de alguma maneira, parece querer solucionar problemas políticos através da arte”.         

    A reflexão de Roelstraete aponta que, embora muitos dos trabalhos não tenham sido produzidos em sua maioria por alemães, é evidente que adocumenta é uma instituição alemã cuja epistemologia não pode ser ignorada.

    No trecho do trabalho Quatrain, apresentado ainda na conferência de imprensa pelo artista e violinista sírio Ali Moraly, vê-se uma obra que parece digerir os horrores da guerra na Síria. Moraly, que pesquisava a música síria há alguns anos, teve que fugir do seu país quando a guerra desatou. Em uma das músicas,Graves in the sky (Túmulos no céu), sente-se um país cujo solo não foi suficiente para guardar os seus mortos. De algum modo, em seu discurso e escolha curatorial, adocumenta parece apresentar a arte como uma possibilidade de terapia.  

    O evento, que acontece a cada cinco anos, vai até o dia 17 de setembro em Kassel. 

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

     

     

  • Confira a lista dos artistas selecionados para a documenta 14

    Confira abaixo a lista de artistas participantes da documenta 14:

    Abounaddara
    Akinbode Akinbiyi
    Nevin Aladağ
    Daniel García Andújar
    Danai Anesiadou
    Andreas Angelidakis
    Aristide Antonas
    Rasheed Araeen
    Ariuntugs Tserenpil
    Michel Auder
    Alexandra Bachzetsis
    Nairy Baghramian
    Sammy Baloji
    Arben Basha
    Rebecca Belmore
    Sokol Beqiri
    Roger Bernat
    Bili Bidjocka
    Ross Birrell
    Llambi Blido
    Nomin Bold
    Pavel Brăila
    Geta Brătescu
    Miriam Cahn
    María Magdalena Campos-Pons and Neil Leonard
    Vija Celmins
    Banu Cennetoğlu
    Panos Charalambous
    Nikhil Chopra
    Ciudad Abierta
    Anna Daučíková
    Moyra Davey
    Yael Davids
    Agnes Denes
    Manthia Diawara
    Beau Dick (1955–2017)
    Maria Eichhorn
    Hans Eijkelboom
    Bonita Ely
    Theo Eshetu
    Aboubakar Fofana
    Peter Friedl
    Guillermo Galindo
    Regina José Galindo
    Israel Galván, Niño de Elche, and Pedro G. Romero
    Pélagie Gbaguidi
    Apostolos Georgiou
    Yervant Gianikian and Angela Ricci Lucchi
    Gauri Gill
    Marina Gioti
    Beatriz González
    Douglas Gordon
    Hans Haacke
    Constantinos Hadzinikolaou
    Irena Haiduk
    Ganesh Haloi
    Anna Halprin
    Dale Harding
    David Harding
    Maria Hassabi
    Edi Hila
    Susan Hiller
    Hiwa K
    Olaf Holzapfel
    Gordon Hookey
    iQhiya
    Sanja Iveković
    Amar Kanwar
    Romuald Karmakar
    Andreas Ragnar Kassapis
    Kettly Noël
    Bouchra Khalili
    Khvay Samnang
    Daniel Knorr
    Katalin Ladik
    David Lamelas
    Rick Lowe
    Alvin Lucier
    Ibrahim Mahama
    Narimane Mari
    Marie Cool Fabio Balducci
    Mata Aho Collective
    Mattin
    Jonas Mekas
    Angela Melitopoulos
    Phia Ménard
    Lala Meredith-Vula
    Gernot Minke
    Marta Minujín
    Naeem Mohaiemen
    Hasan Nallbani
    Joar Nango
    Rosalind Nashashibi and Nashashibi/Skaer
    Negros Tou Moria (Kevin Zans Ansong)
    Otobong Nkanga
    Emeka Ogboh
    Olu Oguibe
    Rainer Oldendorf
    Pauline Oliveros (1932–2016)
    Zafos Xagoraris
    Joaquín Orellana Mejía
    Christos Papoulias
    Véréna Paravel and Lucien Castaing-Taylor
    Benjamin Patterson (1934–2016)
    Dan Peterman
    Angelo Plessas
    Nathan Pohio
    Pope.L
    Postcommodity
    Prinz Gholam
    R. H. Quaytman
    Abel Rodríguez
    Tracey Rose
    Roee Rosen
    Lala Rukh
    Arin Rungjang
    Ben Russell
    Georgia Sagri
    Máret Ánne Sara
    Ashley Hans Scheirl
    David Schutter
    Algirdas Šeškus
    Nilima Sheikh
    Ahlam Shibli
    Zef Shoshi
    Mounira Al Solh
    Annie Sprinkle and Beth Stephens
    Eva Stefani
    K. G. Subramanyan (1924–2016)
    Vivian Suter
    El Hadji Sy
    Sámi Artist Group (Britta Marakatt-Labba, Keviselie/Hans Ragnar Mathisen, Synnøve Persen)
    Terre Thaemlitz
    Piotr Uklański
    Antonio Vega Macotela
    Cecilia Vicuña
    Annie Vigier & Franck Apertet (les gens d’Uterpan)
    Wang Bing
    Lois Weinberger
    Stanley Whitney
    Elisabeth Wild
    Ruth Wolf-Rehfeldt
    Ulrich Wüst
    Sergio Zevallos
    Mary Zygouri
    Artur Żmijewski

    Stephen Antonakos (1926–2013)
    Arseny Avraamov (1886–1944)
    Étienne Baudet (ca. 1638–1711)
    Franz Boas (1858–1942)
    Lucius Burckhardt (1925–2003)
    Abdurrahim Buza (1905–1986)
    Vlassis Caniaris (1928–2011)
    Sotir Capo (1934–2012)
    Cornelius Cardew (1936–1981)
    Ulises Carrión (1941–1989)
    Agim Çavdarbasha (1944–1999)
    Jani Christou (1926–1970)
    Chryssa (1933–2013)
    Andre du Colombier (1952–2003)
    Bia Davou (1932–1996)
    Ioannis Despotopoulos (1903–1992)
    Thomas Dick (1877–1927)
    Maria Ender (1897–1942)
    Forough Farrokhzad (1935–1967)
    Tomislav Gotovac (1937–2010)
    Nikos Hadjikyriakos-Ghika (1906–1994)
    Oskar Hansen (1922–2005)
    Sedje Hemon (1923–2011)
    Tshibumba Kanda Matulu (1947–1981 disappeared)
    Kel Kodheli (1918–2006)
    Spiro Kristo (1936–2011)
    KSYME-CMRC (founded 1979)
    Maria Lai (1919–2013)
    George Lappas (1950–2016)
    Ernest Mancoba (1904–2002)
    Oscar Masotta (1930–1979)
    Pandi Mele (1939–2015)
    Benode Behari Mukherjee (1904–1980)
    Krzysztof Niemczyk (1938–1994)
    Ivan Peries (1921–1988)
    David Perlov (1930–2003)
    André Pierre (1915–2005)
    Dimitris Pikionis (1887–1968)
    Anne Charlotte Robertson (1949–2012)
    Erna Rosenstein (1913–2004)
    Scratch Orchestra (1969–1974)
    Allan Sekula (1951–2013)
    Foto Stamo (1916–1989)
    Gani Strazimiri (1915–1993)
    Władysław Strzemiński (1893–1952)
    Alina Szapocznikow (1926–1973)
    Yannis Tsarouchis (1910–1989)
    Lionel Wendt (1900–1944)
    Basil Wright (1907–1987)
    Andrzej Wróblewski (1927–1957)
    Iannis Xenakis (1922–2001)
    Androniqi Zengo Antoniu (1913–2000)
    Pierre Zucca (1943–1995)

  • Documenta 14 e o desafio de unir Norte e Sul

    Acima, escultura do artista Manfred Kielnhofer, que está na "documenta 14". Foto: DivulgaçãoAcima, escultura do artista Manfred Kielnhofer, que está na "documenta 14". Foto: Divulgação


    A partir do dia 7 de junho, a Continente acompanha a documenta 14, um das exposições mais importantes de arte contemporânea do mundo. Através de uma parceria com o Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA), enviamos a nossa colaboradora Bárbara Buril, jornalista que ficará responsável por acompanhar a primeira semana do evento em Kassel, na Alemanha, de onde enviará à Continente Online uma cobertura exclusiva da mostra, que acontece de cinco em cinco anos.

    Para acompanhar os textos, imagens e vídeos da documenta 14, os leitores podem acessar a home do nosso site, onde estarão em destaque as postagens mais recentes, ou uma página especial, que funcionará como um blog da cobertura desta que é conhecida como “as Olimpíadas das artes visuais”, com artistas do mundo inteiro. No endereço, estarão reunidas todas as postagens, incluindo desde as obras que serão expostas nos espaços tradicionalmente reservados para a documenta, como o Museu Fridericianum, até os debates, as performances e as intervenções que acontecem ao ar livre na programação paralela da documenta.

    Este anoadocumenta 14 acontece pela primeira vezfora desua cidade-mãe, Kassel,ocupando também Atenas, na Grécia, devido à proposta curatorial desta edição de questionar as fronteiras, principalmente política e econômica, entre Norte e Suleuropeu, eglobais. O temade 2017,Learning from Athens, recorrea Atenas não só como símbolo da crise financeira global e migratória na Europa, mas também como ícone representativo daconstrução dademocraciana históriaocidental. Além disso, a escolha de levar a exposição para Atenas está ligada a uma das principais intenções desta edição, que é fazer com que a arte crie pontes e supere fronteiras que a economia e a política não são capazes de realizar hoje. Assim, desde o dia 8 de abril, adocumenta14está em Atenas, onde segue em cartazaté o dia 16 de julho. Em Kassel,a mostraserá inaugurada oficialmente no dia 10 de junho e encerra no dia 17 de setembro. Ambas as versões coexistem, então,durante cerca de um mês (junho/julho),com os mesmos artistas participantes (ver lista AQUI), com obras distintas.

    CRÍTICAS
    Apesar da orientação curatorial da documenta 14, já há uma série de críticas direcionadas ao time do curador polonês Adam Szymczyk, segundo as quais não houve um interesse dadocumentaem incluir os artistas locais na exposição oficial ou na programação paralela do evento. As críticas principais enfatizaram que o modo pelo qual a instituição se inseriu emAtenasreproduziu o mesmo movimento pelo qual o Norte sempre se introduziu no Sul: através de um posicionamento colonialista e dominador, como se pode ver na crítica do curador Moacir dos Anjos publicada no blogConexão documenta 14, do Centro Cultural Brasil-Alemanha (ler AQUI). O curador esteve em Atenas,em abril,a convite do CCBA.

    Certamente, a presença da documenta 14 em Kassel não será tão conturbada como em Atenas. Não só porque é quando o Norte se encontra consigo mesmo, mas também porque se trata do evento mais esperado pelos moradores de Kassel, uma cidade sem muitos atrativos nos anos em que não hádocumenta. É claro que se trata de uma exposição muito bem-vinda pelos alemães. Ainda assim, a partir de uma confiança no potencial transformador da obra de arte (ainda que em um nível mais sutil), espera-se uma sensibilização do público eminentemente europeu para as feridas que acometem o Sul político e econômico do mundo, como se podem ver nos trabalhos dos artistas que integram esta edição. Isso é o queiremos conferir.

    A nossa cobertura segue até o dia 12 de junho.

  • Documenta 14, uma celebração ao estrangeiro

     

     

    "Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril"Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril


    A cidade de Kassel se vê realmentetransformada durante o período da documenta. Desde a abertura oficial da 14ª edição, que aconteceu no sábado (10/6), o que se vê pelas ruas é um trânsito bem maior de pessoas, cuja diversidade cultural demonstra que vieram a Kassel por conta da documenta. Há também uma grande quantidade de policiais espalhados por vários pontos da cidade. No sábado, dia da abertura, até os céus estavam patrulhados por helicópteros da polícia. Isso tanto porque a documenta agrupa em pequenos espaços uma grande quantidade de pessoas, o que a torna alvo de ataques, como porque, na ocasião, Kassel recebeu o presidente da Alemanha, Frank Walter Steinmeier, e a sua contraparte grega, Prokopis Pavlopoulos. Steinmeier inaugurou a parte alemã do evento em frente ao Museu Fridericianum, antes de visitar outras exibições com Pavlopoulos.

    O clima da abertura é realmente diferente. Para o estudante líbio Keil Büzedig, “aqui não parece Kassel. Não recebemos sempre muitas pessoas, então é uma novidade vermos tanta gente por aqui. Não entendo de arte, mas estou empolgado com o trânsito de pessoas falando várias línguas. Aqui só se escuta árabe e alemão e, de repente, escutamos inglês!”. Keil, que mora em Kassel há seis meses, tendo imigrado da Líbia, na África, para a Alemanha com o intuito de realizar um curso superior, refere-se, em sua fala, ao que se vê como a maior comunidade de imigrantes em Kassel: os árabes, de origens síria, turca, curda e libanesa. Por alguns lugares da cidade, é possível entrar no metrô e apenas escutar árabe. Pelas ruas, os restaurantes predominantes são as “Kebaphaus”, lanchonetes onde se vendem os famosos kebabs, e os “Shisha bars”, um mix de café e pub onde se pode beber café ou algo alcoólico, e fumar o que conhecemos como o narguilê.

    Uma atmosfera que pode, inclusive, nos fazer esquecer que estamos, afinal, na Alemanha. E é claro que esses ambientes mais árabes do que alemães nos fazem lembrar tanto do universo distópico criado pelo escritor francês Michel Houllebecq emSubmissão, obra na qual ele desenha uma Europa futura na qual os árabes passam a ocupar cargos públicos na França e a ditar os costumes pregados no Alcorão, como nos levam a refletir sobre os significados da imigração e suas problemáticas. A Alemanha, de fato, abriu as suas portas para os imigrantes e esse ato de generosidade política e social, apesar de louvável, também guarda as suas ambiguidades e dificuldades práticas.

    Cenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara BurilCenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara Buril

    Trata-se de um tema complexo que, aliás, a documenta se propõe a abordar. De todas as obras possíveis de serem encontradas dentro do Fridericianum, Neue Galerie, Kulturhauptbanhof e documenta Halle, a mais impactante dedicada a essa questão é justamente aquela que se pode encontrar ao ar livre, na Königsplatz: a obraMonumento do estrangeiro e do imigrante, do artista Olu Oguibe. No obelisco de 16 metros, está gravada, em alemão, inglês, árabe e turco, a seguinte frase, retirada da Bíblia: “Eu era um estranho e vocês me acolheram”. A obra, por ter uma forma de obelisco e por se localizar na principal praça de Kassel, soa como um monumento de celebração e posiciona-se, assim, contrariamente a todos os movimentos antimigratórios crescentes hoje em dia também no discurso de líderes políticos da Europa, sobretudo ocidental.

    Obelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara BurilObelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril

    O próprio autor da obra, o artista nigeriano Olu Oguibe, viveu quando criança os horrores da Guerra Civil na Nigéria e cresceu na Inglaterra. No monumento artístico que instalou em Kassel, evoca a atual crise de humanidade em certos discursos políticos e reafirma os princípios atemporais e universais de cuidados sob perseguição e guerra. A obra, que ficará na Königsplatz após a documenta e será vista cotidianamente pelos moradores da cidade, parece ter um forte potencial de transformar, pelas vias da repetição visual, o temor e a antipatia à xenofobia.

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

  • Indiano arma tenda em Kassel

    Nikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

    Após um percurso de cerca de 3 mil quilômetros, desde Atenas, na Grécia, onde também está acontecendo a documenta 14, o artista indiano Nikhail Chopra aportou em Kassel, mais exatamente na Kulturbahnhof, onde montou a sua obraDrawing a line through the landscape. A viagem de Chopra e sua restrita equipe compreendeu o cruzamento de montanhas gregas, a passagem por vilas desertas de antigas cidades soviéticas e por monastérios na Bulgária. Antes de chegar a Kassel, Chopra ainda passou por cidades como Budapeste, na Hungria, e Bratislava, na Eslováquia – armando a sua tenda ao longo do trajeto.

    Ao optar por não percorrer os movimentos binários Norte-Sul ou Leste-Oeste, a obra se propõe a retomar as antigas rotas nômades, através das quais é possível encontrar cidades abandonadas, povos rejeitados e o cansaço de todos aqueles que vivem à margem dos caminhos tradicionais. A tenda, aliás, funciona exatamente como este lugar de acolhimento, na qual se entra sem pagar e na qual também se pode conversar, tocar música ou simplesmente dormir. A Kulturbahnhof, espaço cultural de Kassel, não se trata exatamente de um ambiente de agruras, mas ter o símbolo de uma tenda em uma estação de trem sugere exatamente o modo de socialização daqueles que estão de passagem.

    Uma tenda na qual se pode entrar sem pagar oferece toda uma sorte de reflexões sobre a nossa lógica atual (capitalista) de socialização. Só interagimos se temos dinheiro, afinal. No entanto, o que não fica muito claro é como as rotas nômades foram percorridas com a van Volkswagen que acompanhou o grupo de artistas, uma vez que as rotas não tradicionais, na maior parte das vezes, carecem de local para a passagem de carros.

    Nikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

    De modo bastante contraditório, é preciso enfatizar que a marca de automóveis Volkswagen é a patrocinadora principal da documenta este ano. O patrocínio se traduziu tanto em um alto montante reservado para a montagem da exposição, quanto para a execução de obras como a performance de Nikhail Chopra, a montagem doParthenon de Livros, da artista argentina Marta Minujín, e o acompanhamento do artista escocês Ross Birrell, no caminho de Atenas a Kassel à cavalo, que ele ainda percorre com a obraO trânsito de Hermes. O percurso de Birrell, que começou no dia 9 de abril em Atenas, durará 100 dias.

    Embora a Volkswagen já tenha apresentado o primeiro carro elétrico no ano passado, provavelmente a ser lançado em 2020, hoje a empresa alemã é a maior produtora de automóveis movidos a gasolina e diesel do mundo. Em 2015, por exemplo, a Volkswagen esteve envolvida em um escândalo após a descoberta de que os seus veículos a diesel continham um elemento que reconhecia o momento em que passava por um teste de emissão de poluentes para, somente durante os testes, diminuir essas emissões. Durante o uso cotidiano, estes automóveis superavam em até 40 vezes o limite máximo estabelecido pela legislação estadunidense para a emissão de óxido de nitrogênio.

    Para um evento dedicado não só a questionar os desastres ecológicos em uma era neoliberal, mas os processos de desenvolvimento ambíguos no Sul político e econômico, o patrocínio da Volkswagen soa, para dizer o mínimo, um paradoxo. 
    Já a obra de Chopra, apesar da perspicácia ao refletir sobre formas de socialização diferentes, poderia ser mais provocativa quanto ao modo nômade e ecológico de se locomove,  se tivesse sido feita sem um Volkswagen. 

    Interior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara BurilInterior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara Buril

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

     

  • Kassel expõe livros censurados

    "Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril"Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril

    Além de expor obras nos tradicionais espaços expositivos de Kassel, como o Fridericianum, a Neue Galerie ou a Documenta Halle, adocumenta também é conhecida por instalar suas obras monumentais ao ar livre. Como contrapartida artística, algumas instalações externas são concedidas a Kassel, mesmo após o fim da documenta. A obra Os estranhos, de Thomas Schütte, por exemplo, integrou a documenta 9, em 1992, e até hoje pode ser vista na Friedrichplatz. Isso faz da cidade um lugar onde sempre há arte a ser vista nos locais públicos, durante ou fora do período do evento. Nesta 14ª edição, a instalação monumental da artista argentina Marta Minujín tem conquistado a atenção e os olhares dos visitantes.

    Montada na Friedrichplatz, praça de Kassel tão central e importante como a Königsplatz, a obra
    Parthenon de livros foi erigida no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados, como resultado de uma ação nacional empreendida pela nazista União Alemã de Estudantes. O Parthenon criado por Marta Minujín é uma réplica do templo original encontrado na Acrópolis, em Atenas, onde a documenta também é realizada em 2017. A obra simboliza ainda as ideias políticas e estéticas daquela que é vista como a primeira experiência de democracia do mundo.

    Localizado em frente ao Fridericianum, o Parthenon de livros foi formado com cerca de 100 mil volumes que já chegaram a ser censurados em outros lugares do mundo. Na lista, criada pelos estudantes de línguas germânicas da Universidade de Kassel, encontram-se, inclusive, os livros de Paulo Coelho 
    O alquimista eVerônica decide morrer, que chegaram a ser censurados no Irã em 2011.

    Além doParthenon dos livros e doMonumento do estrangeiro e do imigrante (ver AQUI), que, pelo tamanho, chegam a chamar mais a atenção de quem está em Kassel, há outras instalações e intervenções espalhadas pela cidade alemã. Ecoando as mesmas questões trazidas pelomonumento de Olu Oguibe, a obraNós (todos) somos o povo, de Hans Haacke, mostra, em diferentes línguas, a frase que dá nome à obra. Tanto em Atenas quanto em Kassel, foram espalhadas várias reproduções do trabalho, inclusive na fachada da loja SinnLeffers, ao lado do Fridericianum, onde, em cima, também há uma estátua de um grupo de imigrantes chegando a um lugar. 

    Obra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara BurilObra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara Buril

    Logo ao lado, na fachada do Fridericianum, onde antes havia simplesmente os letreiros com o nome “Museum Fridericianum”, vê-se a frase “Being safe is scary” (em português, “Estar seguro é amedrontador”). A obra, do artista turco Banu Cennetoglu, retoma o tema da imigração, que parece ser a questão mais cara a esta documenta 14.

    Além das obras apontadas acima, é possível encontrar outros projetos artísticos igualmente interessantes por toda parte, comoO moinho de sangue, de Antonio Vega Macotela, eTrassen (no Karlsaue), de Olaf Holzapfel. Para conhecer as obras públicas de outras edições da documenta, acesse o link:https://www.documenta.de/en/works_in_kassel

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

     

  • Rasheed Araeen e a arte para ver, comer e jogar

    Detalhe da instalação "Opus", de Rasheed Araeen, na Neue Neue Galerie. Foto: Mathias Voelzke/DivulgaçãoDetalhe da instalação "Opus", de Rasheed Araeen, na Neue Neue Galerie. Foto: Mathias Voelzke/Divulgação

    Uma estrutura com mesas de aço e vidro, madeiras e várias cópias da revista
    Third Textintegram a obraThe reading room (em tradução livre, Sala de leitura), do escultor, pintor, escritor e curador Rasheed Araeen. Trata-se de uma obra aparentemente simples, se comparada aos painéis e instalações que ocupam o espaço da Neue Neue Galerie, onde hoje funciona a nova estação dos correios de Kassel. Apesar do caráter pouco monumental da obra em questão, não se deve subestimar a grandeza intelectual e artística de Araeen e a importância daThird Text em um contexto social específico.

    Araeen, que nasceu no Paquistão, em 1935, não só foi um dos nomes a integrar a primeira onda de artistas não europeus a viver na Europa (no seu caso, em Londres),  mas ainda a figura principal na Inglaterra a militar, como editor, escritor e artista, pela inclusão dos artistas do “terceiro mundo” em um imaginário social eminentemente eurocêntrico. Em 1972, integrou o Movimento dos Panteras Negras (apesar de sua origem não ser exatamente negra) e, seis anos depois, fundou o jornalBlack Phoenix, que, em 1989, se transformou na publicaçãoThird Text: Critical Perspectives on Contemporary Art and Culture. Trata-se de uma das principais publicações a articular reflexões sobre arte, pós-colonialismo e pesquisa etnográfica.

    Embora o artista e editor não mais se envolva diretamente com a publicação (hoje, Richard Dyer, professor de Estudos Fílmicos da King’s College, é a pessoa que lida mais diretamente com as diretrizes editoriais da revista), aThird Text ainda segue a orientação principal proposta por Rasheed Araeen de refletir sobre o impacto da globalização nas práticas culturais e sobre a teoria pós-colonialista. Na última edição, por exemplo, é possível encontrar artigos sobre o lugar das mulheres na economia de mercado, o papel do coletivo artístico Gugulective em suas críticas ao neoliberalismo na África pós-Apartheid e a arte de bonecos no Sudeste Asiático pós-internet, festivais e galerias de arte.

    "The reading room" e a "Third Text", por Rasheed Araeen. Foto: Mayara Marques"The reading room" e a "Third Text", por Rasheed Araeen. Foto: Mayara Marques

    É claro que aThird Text é uma publicação bastante intelectualizada, mas ela foge de todo e qualquer academicismo (os textos são autorais e contam, inclusive, com ilustrações), sendo um espaço de reflexão sobre temas que concernem todos aqueles sujeitos cujos corpos e modos de viver fogem da lógica eurocêntrica. Aliás, a revista está com chamada de trabalhos abertas (confira AQUI) e, fazendo um apanhado de suas últimas edições, basicamente não se veem reflexões sobre a arte brasileira.

    Detalhe da revista "Third Text". Foto: Mayara MarquesDetalhe da revista "Third Text". Foto: Mayara Marques

    O IMPÉRIO DO OLHAR
    Mais recentemente, Araeen tem buscado refletir, em obras comoShamiyaana — Food for thought: thought for change, exposta atualmente na documentade Atenas, sobre as relações possíveis de serem estabelecidas com a arte, questionando o contato visual como a única maneira disponível de interação artística. Como disse em breve conversa com a Continente, em Kassel, “a minha principal ideia é tratar a arte dentro da vida cotidiana. Vida cotidiana é jogar, cozinhar, comer e ser. O problema da documenta é que tudo aqui é para ver. No meu trabalho, você pode ver, mas você pode também comer, jogar”.

    Assim, a obra Shamiyaana — Food for thought: thought for change consiste em uma espécie de tenda com estampas geométricas, dentro da qual os visitantes podem se sentar juntos para experimentar uma refeição baseada nas receitas ao redor do mediterrâneo, que foram cozinhadas em colaboração com a ONG grega Organization Earth, cujo propósito é desenvolver o conceito de inteligência social e ambiental através de uma educação experimental e não formal."Shamiyaana",aliás, é o nome das tendas tradicionais de casamentos paquistaneses.

    Araeen em entrevista para a Continente na documenta 14. Foto: Mayara MarquesAraeen em entrevista para a Continente na documenta 14. Foto: Mayara Marques


    Questionando o olhar como único modo de interação artística, as obras mais atuais de Araeen brincam com uma geometria que deve ser moldada e mudada pelo próprio público. No Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde esteve no ano passado, Araeen levou cerca de 400 estruturas que poderiam ser desmanteladas e desmontadas pelas pessoas como elas quisessem. A geometria das criações de Araeen também está presente em Kassel, logo ao lado de
    The reading room. Aqui, o olhar também cumpre um papel central, mas é um olhar mais leve e divertido, apesar da postura engagément da documenta.

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.