• "Salmo 91": uma prece manchada de sangue

    "Salmo 91", do Cênicas Cia. de Repertório (PE), no "Trema! Festival". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação"Salmo 91", do Cênicas Cia. de Repertório (PE), no "Trema! Festival". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação

    Salmo 91,
    da Cênicas Cia. de Repertório (PE), é um espetáculo que gera revolta. Revolta, angústia, nó na garganta e uma sensação de impotência. Como parte da programação do Trema! Festival, na sexta (12/5), o espetáculo levou ao Espaço Cênicas uma reflexão acerca de uma sociedade que repete, como mantra, “bandido bom é bandido morto”, nos levando a uma colisão direta conosco e com a sociedade que nos cerca.

    “Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido. (…) Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à sua tenda”. Eis alguns versículos do Salmo 91, da Bíblia, usado por muitos cristãos como uma prece de proteção. A primeira e última cena estão intimamente ligadas a este trecho, numa introdução e desfecho dramáticos, trágicos. Um presidiário martiriza-se e questiona-se sobre o tal salmo que sua mãe pediu para ele ler, mas também berra que não, não foram somente 111 mortos caídos ao seu lado, foram mais de 200, incontáveis invólucros, mas ele sobrevivera (numa referência ao massacre de Carandiru, no qual a peça se baseia).

    Se em Ópera(também apresentado na sexta, 12/5), o fio condutor é o amor, em Salmo 91 o sangue é o protagonista. Em cada apresentação dos personagens, os prisioneiros contavam suas histórias, faziam a plateia ao redor sorrir, gargalhar, ou simplesmente ficar calada mediante a escuridão de uma solitária, conhecendo a história de um homem que – passando 120 dias nela – comeu suas próprias fezes. Era uma escuridão tão opressora, tão palpável (a única luz vinha da vela do homem), que clamar pela luz e pelo fim da cena não se tornou um absurdo. Em cada história dos personagens, melavam-se de sangue, pelos seus crimes, ou pelas suas próprias consciências.

    Novamente, “bandido bom é bandido morto” é o que escutamos de civis, políticos, vizinhos e amigos. Que grande hipocrisia. Observando os centenas que morreram no Carandiru, quais bandidos queremos ver mortos? Quando a cena final foi encenada, as luzes piscando velozmente, os atores gritando, despindo-se e jogando-se no chão, enxergamos ali o desejo mais secreto da maioria dos cidadãos: que bandidos, criminosos, ladrões, sejam mortos. O chão vermelho cheio de sangue, igualmente como seus corpos, parece ser a única cor vermelha que a sociedade brasileira quer ver. Miserere nobis! 

  • A dança como utopia

    Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

    Em todo processo de transformação energética, parte dessa energia é perdida e liberada no espaço. O corpo humano, dono da força obtida por suas reações metabólicas, converte essa força em movimento, eletrizando corpos e liberando calor 
    – o suor. Quando dois corpos inquietos, inconformados e dançantes impregnam de calor-energia o mesmo espaço de outros corpos estagnados, é impossível não haver reação. Ao entrar na sala doMuseu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, às 16h de uma segunda-feira, sons característicos do cotidiano das metrópolescarros, ônibus e construçõesainda são ouvidos de longe. AsperformersFlávia Pinheiro (PE) e Carolina Bianchi (SP), cada uma em um canto da sala, iniciam uma pequena movimentação. A cada minuto da primeira apresentação deUtopyas to every day life, que integra a programação doTrema! Festival de Teatro, somos levados à abertura de nossos corpos e mentes, antes tomados pela rigidez da rotina diária, perdendo-se no tempo e espaço.

    Aperformancedialoga com uma instalação em canos de PVC, no alto da sala, de onde um líquido azulado goteja em três pontos diferentes do chão, alternando fluxos. Durante três horas consecutivas, as artistas permanecem em “estado de dança” contínuo, levando seus corpos ao esgotamento. Ao som de músicaspop,que vão desde Roberto Carlos à baladas oitentistas comoTake my breath away, dois corpos irônicos dançam, cantam, atiram-se contra as paredes, riem e correm pela sala; equilibram-se em um único pé, caem e escorregam.

    Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

    Desenvolvida pelas duas artistas durante residência em São Paulo, a “instalação performática” utiliza a ausência de uma
    mise en scènee a horizontalidade do espaço para potencializar a apresentaçãoelementos que integram a pesquisa de Flávia, que já havia se apresentado noTrema. Numa partitura aberta à improvisação, Carolina e Flávia se fazem presentes por toda a extensão da sala, energizam e esquentam o ambiente, instigando também a participação de algunsespectadores(?) que dançam e cantam em alguns momentos –, tornando a experiência umautopyacoletiva.

    Para Bauman, vivemos em tempos de uma modernidade (ou contemporaneidade) líquida, fluída, superficial, cheia de incertezas e inseguranças. Vivendo em contextos distópicos, dançar é uma forma de resistir ao fluxo que tenta nos empurrar contra a parede, solidificando nossa presença e identidade no mundo. Em tempos líquidos, a dança também é uma utopia.

    Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

  • A urgência do movimento como forma de resistência

    Flávia Pinheiro em "Diafragma 3.0". Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoFlávia Pinheiro em "Diafragma 3.0". Foto: Danilo Galvão/Divulgação

    Com o avanço da tecnologia, a possibilidade de exercer controle sobre os corpos instalou a  ideia de superação dos limites impostos pela dimensão material da natureza humana. Se antes eram sujeitos à “fraqueza” inerente a essa condição, os corpos agora passam a ser máquinas eficientes em vida mental e física, devidamente adequadas às novas configurações do tempo, com fluxos ininterruptos que não esperam o levantar após a queda.

    EmDiafragma 3.0: como manter-se vivo?,performanceapresentada noTrema! Festivale terceiro desdobramento de uma pesquisa, Flávia Pinheiro traz um corpo em constante disputa entre a fragilidade da existência e a tentativa de emancipação da sua própria matéria. Acompanhado de duas esferas iluminadas que se movem através de tecnologiabluetooth, um corpo anda por um tablado branco que delimita o espaço da apresentação. São movimentos precisos e bem marcados, como uma máquina, mas que ainda estão sujeitos à imprevisibilidade de ser e estar vivo  tropeçar, cair, interromper o fluxo.

    No linóleo branco, parece existir uma espécie de parede invisível, onde nem o corpo nem as esferas ultrapassam, como um símbolo para a impossibilidade de libertação que a tecnologia diz oferecer. O corpo que (ainda) não é máquina inicia uma sequência de rolamentos, mostrando-se disciplinado à repetição perfeita – remetendo à ideia de rotina, automatização e instrumentalização do nosso tempo, introjetadas mental e fisicamente. A fragilidade é colocada em questão na performance,com a quebra dos padrões de movimento – uma perna trêmula determinado momento, a dificuldade em levantar –, trazendo um alívio, um respiro lento, ao evidenciar que aquele corpo ali presente (ainda) é humano.

    Na mesma semana, Flávia já havia se apresentado no festival com a performanceUtopyas to every day life, em parceria com a artista Carolina Bianchi (leia aqui). A urgência do movimento como forma de resistência é um tema que permeia as duas obras. Não por acaso, o tema do mesmo festival para o qual foram selecionados os trabalhos foi distopias e realidades. Ao encararmos como realidade a ideia de que vivemos em uma distopia – conexões infinitas, mutações genéticas fabricadas, condição pós-humana –, que estratégias podemos traçar para nos mantermos vivos? Ou, a pergunta que surge diretamente é ainda mais preocupante: e se já “não somos mais humanos?”, como diz aperformerdurante a apresentação. O que fazer ao perceber que já não somos mais donos da pele em que habitamos?

  • Com a cabeça nos anos 1980

    Atores partem da relevância social, cultural e política de "Cabeça dinossauro". Foto: Bernardo Cabral/DivulgaçãoAtores partem da relevância social, cultural e política de "Cabeça dinossauro". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação

    "Aa-uu, aa-uu." Quem é o homem que urra na capa do disco Cabeça dinossauro, de 1986? Quem é o que homem que urra no Brasil dos dias atuais? O espetáculo Cabeça Um documentário cênico, de Felipe Vidal, atenta para questões sobre um Brasil em que os ecos do regime ditatorial ressoam hoje com a mesma força dos primeiros anos de redemocratização no país. Em cenário e iluminação de show de rock, oito atores tocam e cantam as faixas do disco Cabeça dinossauro, dos Titãs, intercaladas a provocações que misturam memórias afetivas sobre os anos 1980, poemas e citações.

    No centro do palco, são projetadas palavras e imagens que transitam entre o passado e o presente, numa narrativa construída a partir da conexão entre as inquietações do grupo musical nos anos 1980 e temas que (ainda) permeiam aspectos políticos e sociais da atualidade.Dividido em duas partes, exatamente como os lados A e B do vinil, o espetáculo tem momentos mais sérios e outros mais leves e humorados, sem perder a ironia e o tom ácido das críticas ao conservadorismo.

    A primeira parte pega encalço na agressividade punk rockde músicas como Polícia, Estado violência, A face do destruidore Porrada, trazendo a ideia de uma violência onipresente, que se manifesta nas formas físicas, verbais e psicológicas. Relatos sobre a violência policial e os discursos de ódio do pastor norte-americano Jimmy Swaggart famoso na época pela legião de fiéis que acompanhavam seu programa nas televisões do mundo inteiro ilustram essa ideia.

    Se há cerca de 30 anos JimmySwaggart lotava o Maracanã e aumentava sua fortuna com doações de fiéis, no Brasil atual o fundamentalismo religioso parece se utilizar de estratégias similares, representado por figuras como Edir Macedo, Marco Feliciano e Silas Malafaia. Naquela época, a presença de evangélicos na esfera pública ainda era pouco expressiva. Hoje, o Congresso Nacional conta com uma bancada evangélica de 87 deputados e três senadores, muitos deles detentores de veículos de comunicação.

    Ao ser interrogado sobre o exercício da profissão, um ator recebe uma porradade perguntas, que soam mais como afirmações. "Você mama nas tetas do governo!", "Você sobrevive da Lei Rouanet!", frases que remetem novamente à ideia de que somos constantemente violentados. Em tempos nos quais as redes socais são palco de disputas ideológicas, a intolerância e hostilidade encontram solo fértil nos comentários anônimos da internet, em mónologos que trazem verdades absolutas.

    Entre trânsitos temporais, a peça se debruça sobre uma experiência democrática que sempre esteve em crise, infiltrada pelas raízes de um regime autoritário que nunca foram cortadas completamente. Sarney, à frente do país na época de lançamento do disco, era vice-presidente de Tancredo Neves falecido em 1985 , e chegou à presidência por outro caminho que não o voto popular. Parece que os tempos de hoje tem muitas coisas em comum com a segunda metade dos anos 1980.

  • De esquerda para esquerda

    Leia crítica sobre a Trilogia Abnegação, apresentada noTrema! Festival, no Recife
     

    Cena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

     

    Cena 1 – Em 1980, é criado no Brasil o Partido dos Trabalhadores, o PT.
    Cena 2 – Em 1982, o partido elege seu primeiro prefeito, na cidade de Diadema (SP): o ferramenteiro Gilson Menezes.
    Cena 3 – Inicia-se o processo de redemocratização do país, após 20 anos de ditadura militar. Tancredo morre antes de se tornar presidente, Sarney assume o posto. 1985.
    Cena 4 –1989. O sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, fundador do PT, disputa a primeira eleição presidencial do Brasil desde 1960, perdendo para Collor, do então PRN-Alagoas.
    Cena 5 – Impeachment de Collor, 1992.
    Cena 6 – Em 1997, Celso Daniel é eleito prefeito da cidade de Santo André, no ABC paulista.
    Cena 7 – Em 2001, Toninho do PT, prefeito de Campinas (SP), é assassinado a tiros. 
    Cena 8 – “Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas...” (Alexandre Dal Farra, Abnegação 2)
    Cena 9 – Lula é eleito presidente do Brasil, assumindo em 1º de janeiro de 2003. Celso Daniel, que seria seu chefe de campanha, não pôde testemunhar o momento. Aos poucos, membros históricos do PT se apartam do partido.
    Cena 10 – Em 2011, Dilma Rousseff (PT) sucede o mandato de Lula, tornando-se a primeira presidenta do Brasil.
    Cena 11 – Em 2014, estreia no Centro Cultural São Paulo a peça Abnegação 1, pelo grupo Tablado de Arruar (SP), com texto de Alexandre Dal Farra, diretor da encenação ao lado de Clayton Mariano.
    Cena 12 – Ano seguinte: o grupo apresenta, em São Paulo, a segunda obra da trilogia, Abnegação 2 – O começo do fim.
    Cena 13 – Em 2016, Dilma é destituída de seu segundo mandato, através de um processo de impeachment. Golpe branco ou institucional. No Sesc Ipiranga, o Arruar fecha sua trilogia com Abnegação 3 – Restos.

     

    Esta semana, nos dias 8, 9 e 10 de maio, o público do Recife teve a oportunidade de encarar, de uma vez, as três peças de Alexandre Dal Farra, um jovem autor cuja cara de bom moço não revela, de imediato, o quão brutais podem ser suas palavras, ainda mais ditas em cena. Se levarmos em conta a potência do teatro, além do contexto político atual no Brasil, diríamos que chega a doer em quem assiste, ou melhor, em quem presencia o desenrolar de suas peças. Aqui, ele não está interessado em agradar ninguém, a não ser mostrar as feridas em carne viva que macularam a história da esquerda neste país. Não há dúvidas de que estamos diante de um artista corajoso, que ascende sua força com a encenação do grupo Tablado de Arruar.

    Na denotação do dicionário, abnegar significa renunciar ou sacrificar-se em benefício de outrem ou em nome de uma ideia, uma causa. E então Dal Farra nos pergunta com a trilogia Abnegação: até onde um ser humano vai, em sua práxis política, para realizar objetivos que não estavam explícitos em um programa de governo? Dinheiro, álcool, cocaína, prostituição, esquemas de corrupção e outros vícios do poder são testemunhados pelo público, que, aliás, não é mero espectador, mas cúmplice de cenas repulsivas.

    Talvez não estivéssemos preparados. “A esquerda pensa que o horror é só da direita, e não é. A gente queria abrir espaço para as coisas que estão aí e não queremos lidar. As pessoas compartilham coisas do (site) 247 que, às vezes, são completamente falsas, mas 'foda-se se é mentira, a gente tem que se reafirmar'. A esquerda é feita de ilhas de consenso. Então, o nosso lance foi provocar”, disse Alexandre Dal Farra, durante o debate da última quarta (10/5) do Trema! Festival (Diálogos Tremáticos 3 - Esquerda brasileira: distopias e realidades), cuja programação incluiu a trilogia.

    Final da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFinal da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    Talvez não quiséssemos encarar; não agora, em um contexto pós-golpe. As peças, pelo menos as duas primeiras, são inevitavelmente uma porrada na esquerda e em sua representação principal, o PT, mas foram escritas e estrearam antes do impeachment de Dilma. O cenário mudou, sem dúvida, o que fez o diretor Clayton Mariano falar em “chutar cachorro morto”, se considerarmos sua encenação no Brasil atual. Mas, na verdade, para Clayton – presente no elenco do primeiro espetáculo e ex-filiado do PT – o que acontece é que o partido nunca se deu verdadeiramente a chance de se fazer uma autocrítica, ou mesmo aceitar críticas – ainda que vindas da esquerda. Sendo assim, parece que nunca houve o momento ideal para expor suas contradições, embora saibamos que este seja um momento um tanto arriscado para tamanha ousadia.

    Antes que o leitor ou mesmo alguém que esteve no Teatro Hermilo nestes dias de saga pense que esta é uma trilogia “de direita”, “antipetista” ou mesmo “uma sátira de mau gosto”, como alguém da plateia de Abnegação 2 falou em voz alta, é preciso dizer que estamos diante de uma obra de arte e não de um pensamento que só cabe de um lado ou de outro, como em posts de rede social. O trabalho não está interessado em alimentarFla x Flupolítico, pois a ambiguidade é aqui a matéria-prima de criação e não o discurso direto – ou como alguns poderiam dizer, “panfletário”. A tentativa foi “transformar fato em forma e não em assunto”, citando a explicação do autor, ao se referir, por exemplo, às suas pesquisas em relação ao caso da morte de Celso Daniel, levada a cabo em Abnegação 2. A maneira como se deu essa transformação na linguagem teatral é que parece ser a questão.

    Se há um consenso entre os criadores, é que a trilogia Abnegação se mostra uma obra “da esquerda para a esquerda”. E sendo mais à(s) esquerda(s) a inclinação política de grande parte do público que frequenta esse tipo de teatro (contemporâneo, autoral, sem concessões), já dá para imaginar o quão tem sido difícil para essa plateia ter que se ver, de alguma maneira, no espelho. O exercício é interessante para os que estão dispostos a sair da zona de conforto. E Dal Farra sabe ser cirúrgico: “Antes, era até mais difícil falar sobre essas questões, pois havia esperança. O risco de hoje é a gente santificar uma memória. Comparo este momento (da encenação das peças), então, a uma autópsia: é preciso olhar para o cadáver, tocar nas feridas e perguntar: por que ele morreu?”. Dissequemos então o cadáver, levando em conta o conselho de Abnegação: “Não sinta culpa, fique triste”.

    ABNEGAÇÃO 1

    Zé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoZé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    Ao adentrarmos no Teatro Hermilo, nos deparamos com um ambiente escuro. Uma luminária direciona um feixe de luz a uma mesa, às bebidas alcóolicas e ao quarteto de homens que se movimenta. Desde o início, pelas expressões dos personagens, um deles, de nome Celso, tenta gradualmente apresentar documentos e convencer os demais personagens de que estão cavando seu próprio buraco – na verdade, o dele próprio.

    As coisas não são óbvias, mas o recado é direto. Além dos elementos de composição cênica referidos, alguns papéis repousam no canto da mesa, sugerindo qual é o lugar dos processos legais ante os interesses. A memória oficial como incômodo. Na medida em que a narrativa se constrói, os personagens se desmascaram. Um deles se chama Zé, aspirante a governador que não tira o charuto da boca e balbucia palavras “sem sentido” enquanto bebe no gargalo de um Johnny Walker (o próprio, vale salientar).

    O espetáculo Abnegação 1 é uma espécie de preparação para o espectador, uma preparação para o que está por vir: o descontrole de um jogo de poder comandado por homens, aspecto mais evidente em Abnegação 2. Se há um território marcado pela misoginia, este é o da política, e Dal Farra faz questão de mostrar isso, embora sob uma perspectiva bem masculina. A coragem dele está, inclusive, no modo ríspido com o qual apresenta os diálogos machistas. Estamos diante de um horror caricato, que não escolhe direita ou esquerda, mas neste caso pertence à segunda. Nas primeiras falas violentas direcionadas à única personagem mulher em cena, Zé (André Capuano), Celso (Vitor Vieira), Jonas (Vinícius Meloni) e Paulo (Clayton Mariano) demonstram que o papel dela ali é servi-los. Nem que para isso a “hora extra” valha “R$ 400”. Flávia (Alexandra Tavares), a mulher, só é necessária àquele ambiente quando está de acordo. Ela se submete ao jogo, mas atua também como uma voz dissonante.

    Flávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFlávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    ABNEGAÇÃO 2
    “Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas. Essa peça não tem qualquer intenção documental. É uma criação inteiramente ficcional, livremente inspirada nos fatos ligados a esse acontecimento.” O acontecimento a que se refere o autor no texto de abertura de Abnegação 2 – O começo do fim é o fio condutor do mais controverso e incômodo dos três espetáculos. Estamos diante de um estágio mais avançado de abnegação, em que as figuras envolvidas estão dispostas a tudo para abnegar. E abnegar aqui não significa se sacrificar em nome de um ideal, mas em prol de um jogo cujo objetivo é mais a manutenção de um poder e uma imagem, mesmo que a morte esteja no caminho.

    É corajosa também a disposição dos criadores em desenterrar, cerca de 10 anos depois (em 2013), um caso justificado oficialmente como crime comum pela polícia, mas ainda hoje investigado pelo Ministério Público pelas evidências de seu teor político. Mais do que isso: ficcionalizar um fato que virou tabu para o PT e ainda hoje segue assombrando por sua falta de desfecho – desde então, mais oito pessoas relacionadas ao assassinato do ex-prefeito morreram por razões tão “misteriosas” quanto (questão não tratada diretamente pela peça).

    André Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoAndré Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/Divulgação

    Embora se diga não documental, o espetáculo coloca em cena as figuras do caso, muitas vezes com os seus nomes reais, a exemplo de Sérgio, o Sérgio Sombra, ex-segurança de Celso Daniel, suspeito de ser o mandante do crime. Mas na segunda montagem do Arruar Celso chama-se “Jorge” e o seu irmão Bruno Daniel – peça-chave nas investigações – atende por Antônio.

    Impossível deixar tudo isso para a ficção, mas é por ela que entramos na realidade. A cada peça, temos novos recursos cênicos, que falam por si. O modo particular que Dal Farra e Clayton Mariano transformam isso em teatro tira da banalidade o que jamais deveria ser banal. E é justamente escancarando isso que nos levam ao constrangimento. “Mas nada vai sair dessa sala”, diz Jorge, olhando para a plateia. “Mas isso é para construir um mundo melhor”, um texto na boca de diferentes personagens, em momentos distintos. Enquanto isso, somos torturados com cenas histriônicas (como se o texto não bastasse), que poderiam ser dispensáveis, mas funcionam para a ideia de descontrole. Como “alívio”, somos postos diante de uma mal-estar intercalado por cenas curtas, camadas de dramaturgia em que, diante de uma luz baixa, os atores (incluindo mais uma atriz) nos fitam para narrar histórias de estupro, pedofilia e violência extrema. Em uma delas, um bandido conta com naturalidade como arrancou os dois olhos de um menino a faca. São requintes de crueldade que encontram exemplos análogos no “real”.

    ABNEGAÇÃO 3

    Os atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoOs atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    A última parte da trilogia é menos estridente, mas igualmente trágica. Uma ressaca do que ficou, na voz de pessoas a quem não resta outra coisa senão sentar e contar situações de uma vida comum que ecoam os valores de uma dada classe média, e suas contradições, no contexto pós-ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder.  Aqui a referência ao PT é mais diluída, mas há uma lona vermelha como pano de fundo no cenário. O que restou é sangue ou ideologia? O que fazer com ela?

    Há outras perguntas e não há uma só resposta. Talvez possamos ensaiar algum caminho diante das duas falas finais de Abnegação 2. Na primeira delas, o personagem que faz o irmão de Celso Daniel nos diz: “O que me entristece é a morte de um sonho. De uma utopia, que era muito maior do que tudo isso. Você, Paulo, é parte disso, desse assassinato: vocês mataram a utopia, que naquela época o meu irmão, inclusive, dizia isso, que a utopia estava virando realidade. O que me entristece nisso é que não é só você que deixou de sonhar, não são só vocês. É praticamente a população inteira. Um país inteiro totalmente incapaz de imaginar algo de diferente, um modo diferente, um país niilista, cético, sem imaginação. (...) nós precisamos reacordar a utopia, precisamos reinserir o sonho na nossa imaginação política. Porque senão a realidade vai ficar impossível de suportar”.

    Na segunda, dita por Paulo, o codinome para um dos articuladores políticos da Prefeitura de Santo André à época, escutamos assim: “O problema, Antônio, não é que tal ‘sonho’ esteja em risco, que ele esteja acabando, que o país não saiba mais sonhar... O problema é justamente que ele ainda não acabou completamente. Esse sonho aí, essa utopia que a gente tinha, e que no seu caso não suportou nem seis meses de contato com o mundo real, ela precisa acabar de vez, desaparecer de forma irrevogável, todas as utopias e sonhos, tudo isso precisa sumir, desaparecer da nossa cabeça, porque só quando não houver mais nenhum resquício disso, só quando estivermos totalmente despidos das nossas esperanças, e olharmos para a desgraça do mundo de frente, por muito tempo, sem nenhuma perspectiva redentora além da realidade nua e crua, só então é que poderemos talvez encontrar uma outra capacidade de imaginar, que não se funde na esperança de um sucesso mágico, de uma vitória milagrosa, feita de boas ações. (...) Uma utopia que nascerá do contato com a finitude, com o erro, com o que existe de ruim: com os fatos concretos.

    E os fatos concretos quase sempre carregam um pouco de dor”.

    De uma forma ou de outra, a solução não está pronta e é importante sermos firmes diante da abnegação. Isso não significa ser isento.

  • Dez anos de uma Ópera em busca do amor

    Cena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoCena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    Se existe uma característica que possa definir e catalogar o Vivencial Diversiones com mais clareza e lealdade, esta palavra é excentricidade. Em Ópera, espetáculo (re)apresentado na noite da sexta-feira (12/5), desta vez pelo Trema! Festival, o Coletivo Angu de Teatro (PE) realizou não somente uma obra de homenagem ao grupo, mas levou ao palco do Teatro Apolo uma montagem que, embora criada há mais de 10 anos, mantém-se atual. Trata-se de uma crítica tão forte à realidade que, mesmo com o sarcasmo tão presente nas montagens do coletivo, não passa despercebida.

    Eis que Ópera não segue uma narrativa única ou linear, tal qual Ossos, do mesmo grupo (ambas montagens integraram o Trema!neste ano). Aliás, essas obras possuem, num primeiro olhar, pouca similaridade, sendo mais vista a semelhança no erotismo, no humor e na herança do Vivencial correndo em suas veias. Enfim, durante toda a obra, várias histórias se contam em cada cena, todas elas bem-recebidas pelo público, que gargalhavam e batiam palmas a cada apagar das luzes. Observando, no entanto, o que cada ato passava, pode-se dizer que Óperase construiu sobre o amor e tudo o que isso acalenta, seja aceitação, seja respeito, seja a paixão.

    Isso acontece, por exemplo, logo na primeira cena, na qual os atores interpretam uma rádio-novela de antigamente sobre uma família que se choca ao saber que Surpresa, o cachorro deles, na verdade é gay. O próprio nome da rádio-novela, Entre o amor e o preconceito, já revela em quais princípios Óperase desvendará nas cenas seguintes. No entanto, um dos pontos em que mais se escancarou a capacidade de misturar crítica e humor numa só cena é quando um dos atores se veste metade mulher, metade homem, em todos os detalhes, inclusive nos cabelos, cantando o que parece ser alguma ópera francesa. Aqui, especialmente nesta cena, o que se entende é que as realidades de cada ser humano vão além de suas genitálias, e que intrinsecamente estamos muito mais relacionados com o modo como nos vemos.

    A direção musical e a trilha sonora de Henrique Macedo, assim como acontece em Ossos, é um deleite à parte. Com metade do elenco interpretando anjos, com asas feitas e refeitas por Henrique Celibi – homenageado na noite – André Brasileiro e Robério Lucado interpretam um romance entre um homem e um michê, tal qual em Ossos. Aqui, o erotismo e o apelo sexual atingem o seu ápice, em simulação de cenas de sexo, com os alados cantando como num coral.

    Talvez Óperatenha seu nome ligado justamente à importância da música na condução do espetáculo: nenhuma cena teve ausência de uma trilha sonora, seja cantada, ou somente instrumental. E assim, para coroar uma noite de amor e aceitação, Beautiful, de Christina Aguilera, foi interpretada. Os atores, unidos a uma mulher no centro, despem-se de seus figurinos, e cada qual, novamente se vestem com roupas comuns. É interessante notar que cada ator possui sua própria fisionomia, outros mais magros, outros mais gordos, um ou outro com um corpo atlético, mas todos de diferentes idades. Despir-se, ficando nu, e novamente se vestir com roupas do dia a dia, ao mesmo tempo em que um coração cheio de glitter desce do teto e é refletido no cenário, é talvez dizer que a empatia e o respeito não podem ser considerados uma utopia. É um grito de resistência numa sociedade mergulhada em seus próprios umbigos. 

  • Diga que você está de acordo

    Personagens dividem questões em um cômodo da casa. Foto: Deivyson Teixeira/DivulgaçãoPersonagens dividem questões em um cômodo da casa. Foto: Deivyson Teixeira/Divulgação

    Um pressuposto elementar a qualquer obra-prima é a capacidade de manter-se viva e não atingir o esgotamento. Quanto mais potente um produto artístico, mais se torna passível de recriação e de interpretações intermináveis. Em casos particulares, como em obras que não chegaram a ser concluídas, então, o mistério é aguçado à enésima potência. Aquele sentimento “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, descrito por Manuel Bandeira, pode servir de estímulo para a imaginação de outros artistas. Dito isto porque foi a partir de fragmentos de Fatzer, conjunto de histórias inconclusas do dramaturgo alemão Bertold Brecht, que o Teatro Máquina (CE) desenvolveu seu Diga que você está de acordo! MáquinaFatzer, em cartaz no Recife pelo Trema! Festival. Entre as versões deste trabalho brechtiano, escrito entre as décadas de 1920 e 1930, há o desfecho trazido por Heiner Müller com O declínio do egoísta Johann Fatzer, publicado no Brasil pela extinta Cosac Naify.

    Permeado por extremos, o espetáculo do grupo cearense se movimenta a partir de expressões faciais, rangidos, violência e força física. Quem conhece o Teatro Hermilo Borba Filho sabe de sua aproximação entre a plateia e o espaço cênico. Para um teatro como o apresentado pelo grupo cearense, a relação entre a encenação e esta proximidade funcionou muito bem. De perto, víamos todo o processo de desmonte do cenário à medida que a narrativa ia se desenvolvendo. O cenário, inclusive, composto em maior parte de madeira, acomodava uma casa, além dos cinco personagens interpretados por Loreta Dialla, Fabiano Veríssimo, Felipe de Paula, Márcia Medeiros e Levy Mota em um único cômodo no chão de blocos de madeira. Entre espectador e espetáculo, fez-se o pacto das representações quando associados a outros recursos teatrais. O que unia aquelas pessoas naquele ambiente de fuga acabava sendo reproduzido dentro daquele ambiente cênico. 

    Elementos cênicos remetem a um estado de guerra. Foto: Deivyson Teixeira/DivulgaçãoElementos cênicos remetem a um estado de guerra. Foto: Deivyson Teixeira/Divulgação

    Os personagens falavam uma língua desconhecida a mim, mas que remetia à fonética germânica. Mesmo sem compreender aquelo código, a narrativa se construiu perfeitamente. Personagens empoeirados, feridos e latentes, em uma organização que se desconstruía ao longo da narrativa. Por outros recursos da linguagem teatral, a roupa empoeirada, o cenário, suas inquietudes e o quão abrupta eram suas ações, compreendi que se passava em uma guerra, provavelmente a Primeira Guerra Mundial. Experimentei, naquela atmosfera de guerra e desespero, o contrafluxo da humanidade que é uma realidade de guerra. A partir da encenação de Diga que você está de acordo! Máquinafatzer, percebe-se que o que Brecht nos despertava século passado ainda faz todo sentido. Como em um processo cíclico, ao nos aproximarmos demais da razão, podemos nos perder novamente.

    Leia mais sobre o festival AQUI.

  • Ingressos do TREMA! Festival a partir do dia 10 de abril

    Cena de "Abnegação". Foto: Annelize Tozetto/DivulgaçãoCena de "Abnegação". Foto: Annelize Tozetto/Divulgação

    A venda de ingressos para o 
    TREMA! Festival, realizado pela TREMA Plataforma de Teatro, a partir de a uma visão curatorial voltada ao teatro autoral, inicia-se nesta segunda-feira (10/4). Os bilhetes custarão R$ 20 e R$ 10 (meia entrada) e poderão ser adquiridos no site http://www.compreingressos.com/. O evento cênico começará no dia 3 de maio e irá até o dia 14, em vários teatros do Recife. Confira a programação do festival:

    Programação
    Noite, Circoloando (POR)

    Procura-se um corpo, ação n°3, Núcleo de criação Sesc de Petrolina e Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz (RS)
    Diga que você está acordado! MáquinaFratzer, Teatro Máquina (CE)
    Cabeça, um documentário cênico, Complexo Duplo (RJ)
    Orgia ou de como dois corpos podem substituir as ideais, Teatro Kunyn (SP)
    Trilogia Abnegação, Teatro Arruar (SP)
    Utopias to everyday life, Flávia Pinheiro e Carolina Bianchi
    Diafragma 1.0: como manter-se vivo, Flávio Pinheiro
    Ossos e ópera, Coletivo Angu (PE)
    Salmo 91, Cênicas Cia de Repertório (PE)
    Éneas, o último pronunciamento, Coletivo Gota Serena (PE)
    Leite derramado, Morrent Forte e Club Noir (SP)

    Serviço
    TREMA! Festival
    De 3 a 14 de maio de 2017

    Vários teatros do Recife
    R$ 20 e R$ 10 (meia)*
    vendas a partir de 10/4 no site http://www.compreingressos.com/

  • Onde estão nossos mortos?

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Quando a arte vai às ruas, abre-se uma porta para a imprevisibilidade. Uma mesma intervenção renova-se cada vez que é apresentada em um local diferente, adquirindo novos significados e tornando sua presença ainda mais potente a partir de determinado contexto, numa relação de troca mútua. Ao ocupar a Casa da Cultura, no último fim de semana (13 e 14/5), como parte do
    Trema! Festival, o Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina e a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) não só ressignificou sua ação, como também o próprio local e as relações de sentido que a palavra “cultura” possui para aquele contexto.

    A antiga Casa de Detenção do Recife, hoje um espaço "cultural", existiu por quase 120 anos. Na época de seu fechamento, nos anos 1970, abrigava uma superpopulação de 1 mil presos, distribuídos em celas inicialmente projetadas para três pessoas, mas onde se alojavam oito. Hoje, a Casa da Cultura é um local de grande visibilidade turística e mais voltado ao comércio, com inúmeras lojas de artesanato,comidas típicas e lanchonetes.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Em todo o percurso da intervenção, era notável o estranhamento de boa parte das pessoas que circulavam pelo local. Alguns turistas tiravam fotos, mas logo saíam de perto. É evidente que o público ali se interessava por outro tipo de arte. Levando ao espaço a performance Procura-se um corpo ação n. 3, um grupo de cerca de 15 pessoas vestidas de preto carregava pás em uma das mãos enquanto marchava lentamente. A esse passo, somavam-se batidas fortes no peito, que buscavam transpor o ritmo dos corpos. Era a história da ditadura militar brasileira que eles contavam com seus corpos e, mais precisamente, a históriaapagada. O grupogritava e se desesperava à procura dos corpos desaparecidos duranteos anos de chumbo.

    Ao parar a marcha, cada ator contava a história de um desaparecido para os espectadores mais próximos, entregando fotos dessas pessoas. Imagens capazes de ativar nossa consciência ou memória difusa. Como dito por dois espectadores durante o ato, em relação à foto, “parece alguém que conheço”. De alguma forma, quem assiste àperformancecria afeto e compaixão pela figura apresentada, e aquela imagem entregue pelos atores não era apenas uma fotoera uma pessoa em apuros, desaparecida. A potência da ação foi evidenciada quando uma senhora da plateia, ao ver alguns passantes pisando nas imagens “enterradas” no chãosimbolizando que nunca pôde ser realizado –, disse: “Cuidado, você está pisando em cima do morto!”.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    A história da ditadura não é bela nem tem apelo comercial; é feia e triste, assim como a história da Casa de Detenção e, por isso mesmo, deve ser lembrada. Aqui, o grupo não sóinterveio no espaço, mas tornou visível o que se quer esconder, cumprindo o papel que cabe à arte: incomodar.

  • Quando os corpos chegam antes das ideias

    Leia crítica sobre Orgia, apresentada no Trema! Festival, no Recife


    "Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação"Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

    Entrei naquele apartamento aconchegante, às beiras do Rio Capibaribe, na Rua da Aurora, com certa ansiedade. Assim que entramos (eu e mais algumas outras pessoas), fomos recebidos como velhos amigos pelos atores Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya. Acomodados naquela sala de piso de madeira, sofás e cadeiras espalhadas pelo espaço retangular, as conversas entre público e atores parecia fluir tão naturalmente que, de fato, parecia que já nos conhecíamos. Uma linha bastante tênue separou a convivência e o início do espetáculo Orgia ou de como corpos podem substituir as ideias, do Teatro Kunyn (SP), que integra o Trema! Festival neste ano.

    Quando toda a sala parecia bastante cheia, Ronaldo Serruya convida-nos a um brinde. Conversas regadas por vinho, com um Recife ensolarado a se perder de vista na enorme janela do cômodo, a brisa da maré contribuindo para inebriar as ideias, falamos sobre livros, e sobre como uma leitura pode nos proporcionar uma morada. É que, na verdade, Orgiafoi inspirada no livro-diário homônimo de Tulio Carella, um escritor e dramaturgo argentino que – à convite da Universidade Federal de Pernambuco – veio à capital para dar aulas na década de 1960. Aqui, experimentou o mel da sexualidade aflorada, aventurando-se em corpos masculinos pela primeira vez: tudo isso foi escrito em seu diário.

    Eis que o primeiro ato da montagem é justamente neste clima de despedida de Buenos Aires e de sua esposa, Camila. Os três atores interpretavam a mesma pessoa, e iam e vinham de diferentes cômodos; entretanto, pareciam ser mesmo um único ser: uma só entidade dividida em três corpos. Talvez pelo efeito do vinho, ou não, seja lá se foi proposital, senti-me em casa: uma orgia de afetos, de histórias compartilhadas, misturando-se à própria encenação teatral, como galhos de um único tronco.

    Participar (ou assistir) de Orgiatambém foi como reencontrar-me novamente com o Recife. Por muitas vezes, com a combustão da rotina, passamos por locais, vias e ruas, e não nos deixamos ser conduzidos pela memória. Sendo guiado por aqueles “Tulios”, com um MP3 conectado aos ouvidos tocando uma melodia tão suave e lúgubre ao mesmo tempo, vislumbrei o Recife afetivo que se guardava na minha mente. De ruas perambuladas, de beijos aqui e ali trocados, como relicários da memória mesmo. Deu um nó na garganta, uma sensação de angústia e nostalgia no ventre, de tal forma que os olhos marejaram. Ao mesmo tempo, participando das descobertas do próprio Tulio Carella anotadas no diário, um novo Recife se construía ao redor, uma cidade construída pela perspectiva do próprio argentino.

    E foram suas experiências em orgias, uma “geografia corporal”, de sexos e sarros – e suas consequências – que se traduziu no medo. A festa, no meio do Parque 13 de maio, bastante carnavalesca, foi substituída pela opressão de casacos militares. Vestidos de animais, em referência aos próprios escritos poéticos de Carella (vale prestar uma atenção singular ao king kong), os que antes eram festeiros agora nos conduziam entre gritos, cercados por uma corda, a um lugar desconhecido. “É viado!”, gritou um homem a certa altura do trajeto, talvez ao ver os vestidos coloridos daqueles que nos conduziam.

    Ver-se preso pelas cordas e pelos gritos, a cena que se constrói após é o ápice do sufoco. Seus corpos, desprovidos de quaisquer roupas, soterrados pela ditadura militar, refletiam não somente a biografia de Carella enquanto torturado pelos anos de chumbo, mas refletiam igualmente a barbárie. Confesso, senti-me oprimido tal qual o que via à frente. Três corpos em orgias de ideias e significados. 

  • Sob as cortinas do passado

    Juliana Galdino é Eulálio em "Leite derramado, de Roberto Alvim. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoJuliana Galdino é Eulálio em "Leite derramado, de Roberto Alvim. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

    Antes, tomemos emprestado este parágrafo-síntese da contracapa do livro Leite derramado(2009), de Chico Buarque, escrito pela crítica Leyla Perrone-Moisés para, daí em diante, partirmos para o espetáculo homônimo encenado no Teatro de Santa Isabel no último fim de semana, no encerramento do Trema! Festival.Resume Leyla: “Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos”.

    Na encenação de Leite derramado(Morente Forte Produções Teatrais e Club Noir/SP), à medida que os espectadores ocupavam seus respectivos lugares, encontravam, à sua frente, os dizeres do prólogo “Nossa tragédia é toda sua”, dispostos antes de se abrirem as cortinas do passado, como na música Aquarela do Brasil, uma das que compõem a trilha sonora da peça. O que seria apresentado ali, de fato, era um pouco de nossa história, a história deste país pelas memórias do personagem Eulálio Montenegro d'Assumpção (interpretado por Juliana Galdino). O espetáculo nos rememora que a história do Brasil nos percorre, que os fatos de outrora ressoam até hoje – ainda mais nas atuais circunstâncias politicas e econômicas – e por isso nos é demandado ir à luta, às ruas. Nós, les brésiliens.

    A tragédia em ambiguidade. Uma referência ao gênero teatral – mesmo que a adaptação do dramaturgo Roberto Alvim não seja exatamente uma tragédia, não em seus moldes tradicionais –, mas também ao sentido adjetivado, característico do que é trágico, como se apontasse para o espectador e afirmasse: “Isto aqui, esta história também é sua”. Já de início, três moscas vestidas de roupas de hospital sambam antes mesmo de as cortinas abrirem. Não há como não estranhar logo no primeiro momento. Lembra Kafka, tanto pelos seres meio insetos, meio humanos, quanto pelo estranhamento e curiosidade que as figuras geram aos olhos do senso comum.

    A história é contada no livro a partir do ponto de vista de Eulálio, mas na encenação de Alvim, o diretor optou não por um monólogo, mas pela inserção de outros personagens que dialogam com o protagonista e suas memórias. Outro aspecto interessante é a escrita bastante experimental do livro, do ponto de vista literário, que é incorporada à montagem. Por se tratar de uma narrativa construída a partir de memórias, ou seja, sem cronologia ou espaço muito definidos, o experimentalismo se acentua justamente pelo texto bastante fragmentado, explorado na adaptação do diretor.

    É preciso se desprender das formas tradicionais dos gêneros dramáticos para se experienciar este tipo construção cênica – e literária –, livrar-se das demarcações de tempo e espaço. Mas, a exemplo de Leite derramado, é preciso ainda se livrar das noções de personagens tradicionais também, já que um personagem pode, com o recurso de mudar o tom e o timbre da voz, representar outros personagens. Por falar nessas trocas de vozes, é possível que alguns espectadores não soubessem – tamanho o "naturalismo" de sua interpretação  –, mas é a atriz Juliana Galdino quem faz o papel do velho protagonista. Anteriormente, a atriz já havia interpretado um macaco que se transformou em um humano na peça Comunicação a uma academia, também pela Club Noir. A escolha da cenografia, além disso, cria um contraste com a densidade e melancolia do texto, com referências à “brasilidade”: há elementos super coloridos que vão desde a maquiagem a objetos no palco, por exemplo. Em diversos momentos, o elenco executa movimentos coreografados, mas a questão coreográfica também está na iluminação do espetáculo.

    Uma das críticas apresentadas, através de nuances de ironia do texto que encontram na montagem uma feroz aliada, foi em relação à visão de progresso industrial. Com um dos hinos da ditadura militar, Pra frente Brasil, o personagem Eulálio corre em círculos, até que uma cadeira de rodas com duas bandeiras brasileiras se aproxima, como se a pressa para crescer trouxesse o cansaço. Uma peça feita a partir de um livro escrito por Chico Buarque, um dos maiores compositores deste país e exemplo de resistência nos anos de chumbo, que traz em sua trilha a versão do próprio autor cantando Deus lhe pague, sabe ser potente. O teatro nos lembrando que todos têm direito ao pão pra comer e a muito mais do que um chão pra dormir. Deus lhe pague!

  • Sob os véus de "Noite"

     André Braga em "Noite". Fotos: Danilo Galvão/DivulgaçãoAndré Braga em "Noite". Fotos: Danilo Galvão/Divulgação

     

    O peito encostado ao zinco sujo
    Duma geração de subúrbio presente
    Aqui os jovens, com a canga nos ombros
    E o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
    O copo estilhaça os vidros esfregados
    Nos ombros
    No peito onde uma veia rebenta
    Para mostrar o radioso canto
    Depois dança contorce-se embriagado
    Sobre o rosto suado
    Com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
    Construindo a derradeira máscara
    Cai para dentro do seu próprio labirinto
    ” 

    Al Berto, no poema Noite de Lisboa com autorretrato e sombra de Ian Curtis

     

    Nossos afazeres cotidianos, se pensarmos, são esboçados em torno de diversas correntes elétricas, sejam os impulsos biolétricos ou as próprias instalações elétricas convencionais. Espaços ocupados por luzes, numa espécie de relação dialética, ditam o fluxo de pessoas em determinado território, mas também invocam luzes aos lugares. O submundo, talvez por trazer uma simbologia do escuro, seria por vezes compreendido como um território insociável. Contudo, por toda parte, quando o dia é coberto pelo véu da noite, começa-se o preparo para o que está por vir.

    É neste ambiente de iminência das transformações suscitado pelo noturno que o espetáculo Noite, da Cia. Circolando (Portugal), se desenvolve. As ações invocadas pelos objetos cênicos escolhidos, mesmo que não sejam consolidadas em cena, despertam para o que poderia ser. Luvas de boxe, roupas, máscaras do modo utilizado pelos três bailarinos (André Braga, Paulo Mota e Ricardo Machado), dão autonomia ao público para que construa suas interpretações, ainda mais quando associados aos movimentos apresentados no espetáculo. Apesar do título no singular, são várias as noites recriadas pelo grupo a partir da obra poética do português Al Berto. Isto, entre aspectos comuns, além dos particulares de cada uma destas "noites" representadas.

     

    Na abertura do Trema! Festival, por volta de 20h15, Pedro Vilela, o diretor artístico subiu ao palco do Teatro Barreto Júnior para brevemente fazer as apresentações. Entre o que foi dito, deram o tom do que nos espera no festival deste ano (cujo tema é 'distopias e realidades') provocações como a frase do escritor de Admirável mundo novo, Aldous Huxley: “E se esse mundo for o inferno de outro planeta?”; ou ainda: “O nosso lema será sempre resistir”.

    Trio dos performers na abertura do Trema!, dia 3/5, no Teatro Barreto Jr., no RecifeTrio dos performers na abertura do Trema!, dia 3/5, no Teatro Barreto Jr., no Recife

    Voltando à noite, em momentos da apresentação surgem alguns devaneios. Mascarar-se com expressões de sanha ou vestir luvas de boxe poderiam imediatamente intimar o espectador participante a pensar em embates, num sentido mais denotativo. Entretanto, no ambiente cênico desenvolvido pelos três ao lado do DJ André Pires – também presente no palco –, estas representações acontecem através de sugestões e tensões. Nos território de iminência das ações, como dito anteriormente. Os atritos propostos pelos artistas lembram que conflitos – até quando físicos – não se consolidam apenas por meio de pancadas ou socos, eles se estabelecem também no plano simbólico. Isto, para trazer da abundância atual de conflitos desta esfera no Brasil e no mundo.

    A base dos elementos cênicos em Noite são as pilhas de pneus e, claro, os três corpos masculinos que percorrem o palco. Eles transformam-se. Dançam entre escuridão e as diversas luzes. Mas é pela mistura, entre recursos do teatro, da dança e da performance, que a ordem dá lugar à desordem, contribuindo para o processo caótico. Diversos materiais besuntam desde os bailarinos aos componentes cênicos, por toda a apresentação. A fricção entre os pneus, os corpos e os fios dispostos pelo palco ecoam, inclusive, sonoridades que se regulam à trilha desenvolvida pela mesa de som de André Pires.

    Ainda sobre a sonoplastia, sempre inserindo no universo da música eletrônica, o espetáculo traz o tango, a ópera e a música clássica, além dos ruídos. A composição cênica em outros campos de Noite sugere questões sobre o amor, o caos, a ironia e a solidão. Eles extendem ao palco a zona de combates simbólicos que é a sociedade e levam o espectador, alguns momentos com humor, a cair dentro de seus próprios labirintos.

  • Trema: Utopias para sobreviver ao caos

    Festival de teatro chegaà sua quinta edição com espetáculos que trazem a inquietação e a busca por compreender o homem na contemporaneidade. Vai de 3 a 14/5 no Recife


    "Noite". Foto: José Caldeira/Divulgação"Noite". Foto: José Caldeira/Divulgação

    Em um momento no qual o conceito do real é cada vez mais poroso (vide a proliferação dasfake news), o absurdo pode se tornar a regra sob o manto da salvação, de um futuro que olha para o passado e promete resgatar valores “fundamentais”, cuja função parece ser manter privilégios e barrar o avanço da pluralidade. Uma descrição que parece capturar a essência do Brasil em 2017.

    Buscar formas de problematizar e transformar esse cenário tem sido a preocupação cada vez maior dos artistas de teatro do país. Norteado pelo conceito de distopias e realidades, oTrema! Festival de Teatro, em sua quinta edição, que ocorre de 3 a 14 de maio, no Recife, endossa esse movimento e propõe olhares múltiplos sobre o Brasil e os “Brazis”.

    Fundado em 2012 com o intuito de ser um festival voltado para a produção de grupos, oTrema!vem conseguindo, em um curto espaço de tempo, se firmar como um dos mais importantes eventos de artes cênicas do Nordeste. Em Pernambuco, a mostra tem assumido um lugar que se afasta da necessidade de promover uma grade extensa (porém, sem muito conteúdo), preferindo montar uma programação enxuta, com diretrizes curatoriais claras e voltadas para a pungência da produção contemporânea.

    Percebíamos que o teatro de grupo, configurado pela pesquisa continuada, acabava sendo relegado em alguns festivais. Isso se dava pelo caráter destes trabalhos, que não estava amparado pela figura de ‘grandes nomes’ ou celebridades que fariam encher os teatros facilmente, mas pela pesquisa e experimentação de linguagem. Eu me deparava com trabalhos maravilhosos e me perguntava ‘como isso nunca chegou ao Recife?’. Então, resolvemos encarar esta batalha de sermos agentes atuantes para viabilizarmos estes encontros”, explica Pedro Vilela, que integra a plataformaTrema! junto a Mariana Rusu e Thiago Liberdade.

    Desde o ano passado, porém, o festival aboliu as restrições para produções individuais, entendendo que o conceito de pesquisa continuada não se restringe à criação coletiva. Esse movimento se deu também pela própria trajetória de Vilela, que, antes, integrava o Grupo Magiluth. “Ao sair de um grupo, percebi que esse recorte poderia ser um agente excludente. Isso também se relacionava a uma conjuntura nacional de diferentes artistas que ou iniciavam novos processos distantes de seus antigos grupos (caso da Grace Passo com o Espanca) ou de grupos que se associam com produtores para viabilizar sua manutenção. Percebi também que a tão falada continuidade de pesquisa e experimentação de linguagem não se reduzia aos grupos teatrais, ainda que, em sua maioria, ainda estejam neles”, pontua.

    CRISE E ARROCHO
    É de se destacar o papel doTrema! no cenário de artes cênicas de Pernambuco. Se, antes, eventos como oFestival Recife do Teatro Nacional, promovido pela Prefeitura do Recife, cumpriam o papel de trazer à cidade um recorte vigoroso do que está sendo produzido no nível local e nacional, ajudando também a formar público, hoje, o que se vê é um esvaziamento dessas iniciativas. OFRTN, inclusive, chegou a não acontecer em 2014, por uma opção da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura da Cidade do Recife de torná-lo bienal.

    Posteriormente, a decisão foi revogada, mas seus efeitos danosos permanecem. A mostra, que chegou a ser uma referência no Nordeste, hoje perdeu força e credibilidade (vários cachês da última edição, realizada em novembro de 2016, ainda estão com previsão de pagamento para este mês, sob protesto dos artistas).

    A situação, no entanto, não é sintomática apenas em Pernambuco. Diante do arrocho financeiro pelo qual atravessa o país, os festivais de artes cênicas têm passado por um profundo processo de reformulação.“A ‘crise’, que automaticamente fez reduzir os recursos para suas realizações, obrigou a todos repensarem seus modelos, seus objetivos e formatos. E disto fez surgir o investimento em festivais com menor duração, mas com grande potência em suas curadorias, privilegiando questões básicas que andavam esquecidas, como o encontro, o diálogo”, acredita Vilela.

    Orçado em R$ 230 mil, o festival tem apoio do Ministério da Cultura e do Itaú, que entrou com 50% do valor total. Para Vilela, o incentivo financeiro por parte da administração pública deveria ser, por essência, uma baliza para os produtores, diminuindo o preço dos ingressos e, assim, popularizando o acesso.

    Acho que nós artistas devemos ser referências no que fazemos, principalmente por lidarmos cotidianamente com dinheiro público. Criou-se a falsa ideia de que somos ‘mamadores’ de dinheiro público e isso é uma leitura inconsequente. O grande problema é como a Lei Rouanet vem sendo empregada, principalmente, em produtos que por si só possuem capacidade de viabilização no mercado. Quando um festival recebe milhões para sua realização e não cumpre o princípio básico de acesso à população, democratizando os valores de ingressos, para mim há algo errado nessa cadeia. Para que realizarmos um festival de teatro com ingressos a R$ 70? Para retroalimentarmos quem tem condições de acesso a essas obras em qualquer momento do ano? Nosso pensamento é contrário: queremos ingressos a preços acessíveis, porque queremos mudar paradigmas, desmontar estruturas e sabemos que o teatro é potente para isso”, reforça.

    UTOPIAS DIÁRIAS
    Para esta edição, oTrema! usa como referência curatorial uma indagação de Aldous Huxley, autor do distópicoAdmirável mundo novo: e se esse mundo for o inferno de outro planeta? Assim, sua grade congrega espetáculos que têm em seu cerne a inquietação e a busca por compreender o homem inserido na contemporaneidade.

    Entre os destaques, está aTrilogia abnegação, do Tablado de Arruar (SP). Escritos por Alexandre Dal Farra, os espetáculos abordam as estruturas políticas do Brasil através da investigação da história de um partido político de esquerda, formado por trabalhadores, da sua fundação à chegada ao poder. Também direcionando uma lente de aumento em busca das minúcias doethos nacional, o Club Noir (SP) trazLeite derramado, adaptação do livro de Chico Buarque. Na peça, o protagonista, descendente de portugueses escravocratas, de políticos corruptos e aliados à ditadura militar, passa seus últimos dias abandonado em uma maca de hospital público, precisando lidar com as consequências de injustiças que ajudou a perpetuar.

    A convivência e a opressão do homem pelo Estado também norteiam a dramaturgia deMáquina Fatzer– Diga que você está de acordo, do Teatro Máquina (CE), que acompanha quatro soldados confinados em um local à espera de alguma revolução. EmCabeça (Um documentário cênico), o Complexo Duplo (RJ) leva ao palco as canções do álbumCabeça de dinossauro, dos Titãs, lidas como reflexo de seu tempo, os anos 1980, e dos dias atuais.

    No campo que permeia mais o abstrato, dois espetáculos destacam-se por sua investigação do sensorial:Noite, do Circolando (Portugal) e dois trabalhos de Flávia Pinheiro (PE),Diafragma 1.0: Como manter-se vivo e o inéditoUtopias to everyday life, em parceria com Carolina Bianchi (SP).Orgia, do Teatro Kunyn (SP), também permeia o campo do simbólico, adaptando para o palco narrativas do argentino Tulio Carella, em que relata o desabrochar de sua homossexualidade no Recife dos anos 1960, fornecendo um retrato delicado sobre a natureza humana e a cidade da época, com seus cheiros, cores e tipos.

    O teatro, mais uma vez, se coloca como um agente de entendimento de nossa humanidade, antevendo questões ou jogando lupas para dados concretos de que teimamos fugir; olhando mais fundo nosso próprio país. Porque,no fundo, o teatro serve para refletirmos sobre o nosso próprio estar no mundo”, enfatiza Vilela.

    Veja programação completa AQUI.