• Duas décadas sem o poeta da beat generation

    Allen Ginsberg. Foto: ReproduçãoAllen Ginsberg. Foto: Reprodução

    Junto com Jack Kerouak e William S. Bourroughs, ele formou a “divina trindade da literatura beat”, que contribuiu para a abertura das mentes de jovens de todo o mundo


    Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, famintos, histéricos, nus, se arrastando pelas quebradas da cidade na alta madrugada em busca de algum trago brutal.” Estes são os versos iniciais de um dos poemas mais populares do século XX:Uivo, de Allen Ginsberg, poeta norte-americano cuja morte completa duas décadas neste abril.

    Ginsberg foi um dos grandes expoentes dabeat generation e da contracultura do século que passou. Seu livroHowl and other poems (1956) forma, junto comOn the road (1957), de Jack Kerouac, eNaked lunch (1959), de William S. Burroughs, a divina trindade da literaturabeat (à qual podemos também adicionar o discoThe times they are a-changin’, clássico de Bob Dylan de 1964), obras que influenciariam rebeliões poético-existenciais da juventude por todo o planeta nas décadas de 1950, 1960 e 1970, principalmente. Sendo um dos momentos mais extraordinários da arte no século XX, abeat generationmisturou, em seu grande drinque existencial, doses fortes do romantismo, do simbolismo, do surrealismo, de Whitman, de Rimbaud, da filosofia oriental, do jazz. Junto a esse repertório, injetou também na circulação sanguínea a experiência de expansão da mente através da fruição de drogas, a liberdade sexual, abrindo sendas luminosas para que a juventude rebelde e insatisfeita com os rumos do mundo capitalista propusesse novos modos de vida naqueles conturbados tempos de Guerra Fria. A contracultura era a floração bonita de uma arte explosiva e afetuosa, poética e política, momento mágico do horizonte utópico, quando a poesia se torna a vida.

    Integrante central do movimento e um dos maiores artistas do seu tempo, Ginsberg – poeta libertário, inquieto, experimental, cuja escrita, de alta voltagem, revolucionária no fundo e na forma, na qual o principal combustível era a vida – abriu lugares respiráveis no meio da imensa ruína que se tornou a civilização moderna. Suas preocupações políticas eram atentas e intensas – chegou a falar, numa entrevista de 1994, sobre os problemas da hipertecnologia que, já àquela época, estava consumindo o planeta e destruindo as possibilidades humanas.

    O poeta nasceu em Newark, Nova Jersey, em 3 de junho de 1926, e morreu no dia 5 de abril de 1997, em Manhattan, Nova York. Deixou uma das bibliografias mais poderosas do século XX, além do já citadoHowl and other poems (1956), publicou os essenciaisKaddish and other poems (1961),Reality sandwiches (1963),The fall of America – Poems of these states (1973), entre outros. Sob o influxo de Whitman, do jazz e da prosabop de Kerouac, criou, com seus poemas, um fulcro de resistência, acendendo novas possibilidades de escrita inventiva, através de um ritmo alucinado e caminhos sintáticos enviesados que abriam grandes portais de dizeres diretos, como palavras de fogo em cartazes numa imensa manifestação, demonstrando a sua inabalável ética. Uma poesia de todo antípoda da poesia departamental em que imperava o beletrismo e seu vasto vestuário moral, poemas moralizantes travestidos de “formalmente bem-resolvidos” com suas burocracias ruminantes, flertes baratos e flores de plástico.

    A poesia, portanto, era o espelho daquela sociedade de plástico que se construíra sob os pilotis doamerican way of life. É nesse contexto que a poesia de Ginsberg surge. E surge assumindo-se publicamente homossexual e simpatizante do comunismo – a clássica figura das bruxas que o senador Joseph McCarthy adorava caçar –, gerando, claro, grande escândalo, o que levará, inclusive, a tentativas de censura e processo contra ele. Ainda assim, valente, será uma poesia de resistência e experiência do início ao fim. Uma escrita que estremecerá os alicerces do já apodrecido sonho americano e todo seu infinito arsenal de hipocrisia e mentira.

    Causando incômodos tanto à direita quanto à esquerda, sua poética libertária proporá caminhos que não se conciliam com a ideia – já bem velha e falha, aliás – de uma sociedade tutelada por um Estado. Podemos pensar no ideário místico de Ginsberg como propostas de combate político. Através da poesia, cultivar a mentalidade mágica, daí para aquilo que o autor deUivo chamava de “Suprema Realidade”, através da qual se pode ver todo o Universo sobre os telhados das velhas fábricas abandonadas de subúrbios esquecidos pelo tempo, num imenso e portátil mirante cósmico. É a fusão do poeta e do xamã. Na busca de uma ancestralidade selvagem, orgiástica, libertária, que inaugure uma nova sociedade. Uma busca desesperada pelo ser natural, pela felicidade.

    Lido por gente como Bob Dylan, John Lennon, Patti Smith, Kurt Cobain, tornou-se um fenômeno editorial. Isso faria sua figura muito popular, colocando-o como um dos artistas-símbolo das resistências e revoltas da segunda metade do século XX. Jamais, porém, foi devidamente reconhecido pela academia, pois, como diziam, era obsceno. Não ganhou Pulitzer, nem Nobel. Sem problemas. Era da rua que sua mente captava a frequência da moçada e a devolvia, num diálogo enriquecedor e luminoso. A escritura visionária e a ação revolucionária caminharam juntas até o fim. O poema como gesto afetivo-político.

    Leia matéria na íntegra na edição 196 da Revista Continente #abril 2017