• A potência da MITsp entra em cena

    Chilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/DivulgaçãoChilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/Divulgação

    Nesta terça-feira (14/3), tem início um dos eventos mais esperados no campo das artes cênicas de nosso país: a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que chega à sua quarta edição. No período de uma semana (até 21/3), o público brasileiro poderá se deparar com um importante recorte do que vem sendo produzido mundo afora, a partir da evidência de pautas urgentes a serem discutidas.

    Ainda que a abertura da mostra tenha ficado a cargo do grandioso espetáculo Avante, marche!dos diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, acredita-se que estarão nos espetáculos de menor porte a potência desta edição. A propósito, o Avante, marche! tem o trabalho do compositor Steven Prengels (companhia les ballets C de la B), através do qual quatro atores e sete músicos serão acompanhados por 18 instrumentistas brasileiros (ver programação AQUI).

    Um dos nomes mais esperados é o do libanêsRabih Mroué,ator, dramaturgo e artista visual que estará na MITsp com três obras. Na primeira, intituladaRevolução em pixels (Pixelated revolution), o próprio artistainvestiga, a partir de imagens de Youtube, numa espécie de palestra não acadêmica, as muitas questões que cercam a gravação dos manifestantes sírios, de sua própria realidade, para o resto do mundo. EmTão pouco tempo (So little time), cabe à atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, discutir sobre o fascínio por imagens de líderes mortos, muitas vezes mais interessantes do que quando estão vivos. Por último, emCavalgando nuvens (Riding on a cloud), o ator Yasser Mroué, irmão de Rabih,constrói uma biografia, entremeada pela realidade política, pelas memórias, pelos fatos e pela ficção,carregando sequelas da violência, tão comuns a tantos outros indivíduos no Líbano.

    Outro importante nome do teatro político mundial, o chileno Guillermo Calderón retorna ao Brasil com seu mais recente trabalho,Mateluna(Mateluna).Numa espécie de continuação de sua obra anterior,Calderón parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna, que colaborou com a criação deEscuela, apresentada na MITsp de 2014. Logo depois, ele foi preso pela polícia, acusado de estar envolvido em um assalto a banco e condenado a 16 anos de prisão.

    NEGROS

    Ntando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/Divulgação

    O protagonismo negro também entra na pauta da mostra, com três obras compondo um importante painel sobre o tema: as estreias nacionais de
    A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa,com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol,com dramaturgia e direção de Alexandre Dal Farra.

    Abordando os estereótipos racistas e questionando se existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou se elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero no que quer que façam, a performance-concertoBlack off(Black off), da atriz, cantora e performer Ntando Cele, de Durban, na África do Sul, promete longas filas no Itaú Cultural, sendo este o único espetáculo com distribuição gratuita de ingressos.


    Integra também esta proposição de olhar a realização do seminário Discursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, com a presença depensadoras de distintas áreas do conhecimento a refletir sobre os desdobramentos da escravidão negra e as formas do racismo no Brasil e no mundo.

    Pernambuco estará presente na mostra com o lançamento da TREMA! Revista de Teatro, edição do Negro. Os artigos foram escritos por pensadores que participam das mesas de debate do seminário, como Giovana Xavier e a norte-americana Patricia Hill Collins.

    Estas últimas ações apontam para o importante espaço dedicado pela MITsp ao campo formativo, seja através do Olhares Críticos,sob a curadoria de Luciana Romagnolli e Kil Abreu, com propósito de refletir sobre as dimensões públicas da crise e formas de resistência; seja pelasAções Pedagógicas, sob a curadoria de Maria Fernando Vomero, iniciadas antes mesmo da mostra de espetáculos.

    O acesso às atividades formativas é gratuito, enquanto que os ingressos para os sete espetáculos internacionais, inéditos no Brasil, esgotaram-se pouco tempo depois de serem colocados à venda, restando poucos lugares para os nacionais.

    A Revista Continente mais um ano dedicará espaço exclusivo para cobertura de toda a MITsp. Avante!

  • O protagonismo negro sobe ao palco

    "A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação"A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação

    Uma das marcas desta quarta edição da MITsp está nos trabalhos que evidenciam o protagonismo negro e a discussão em torno do racismo. Sob diferentes abordagens, o público da mostra teve a oportunidade de acompanhá-los: foram duas estreias brasileiras na última sexta (17/3), além de uma obra internacional.

    A primeira, intituladaBranco: o cheiro do lírio e do formol,possui direção de Janaina Leite e Alexandre Dal Farra, que também assina a dramaturgia da obra. Branco não é um espetáculo fácil de ser processado pela plateia. A partir de uma dramaturgia extremamente fragmentada, o autor evidencia seu próprio impasse, sendo branco, ao ter que lidar com o tema do racismo em nosso país. Uma obra dentro de outra obra. Camadas dramatúrgicas são adicionadas, desde as primeiras versões do texto a trechos de ensaios de outras possíveis versões. Como ponto proeminente, a urgência e violência das palavras, que são marcas do autor.

    Dal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoDal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Na segunda estreia, A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa
    , o diretor Eugênio Lima e 15 performers negros retomam o texto do alemão Heiner Müller (A missão: lembrança de uma revolução),aproximando sua proposta à escrita em 1979. Vale lembrar que este grupo/espetáculo surge da performance intitulada Em legítima defesa, realizada na edição passada em diferentes espaços da mesma mostra. Tal qual a performance do ano passado, o espetáculo adquire para si o tom de grito de protesto, pautado por um discurso emergencial e perpassado, inclusive, a ocupação destes espaços simbólicos por performers negros. Entretanto, com mais de três horas de duração, a obra peca pelo excesso, não em relação à quantidade de temas e questões, mas à extensão demasiada de cada bloco de cena.

    Para Müller, a voz da revolução que ainda pode sacudir o mundo ocidentalizado surgirá da  Ásia, a África ou América Latina. Se os brasileiros compuseram parte desta voz, nesta MITsp, coube àartista sul-africana Ntando Cele, com Black off, o papel de mais tranquila resolução desta tríade, comungando com as questões raciais impostas pela “branquitude” de Dal Farra e, ao mesmo tempo, performando sobre questões emergenciais do ser negro de A missão.O espetáculo, dividido em dois blocos, traz, em seu primeiro momento, um humor desestruturador de plateias, com requintes de acidez. Somos postos diante deBianca White, alter ego de Cele, que tentar tirar o negro de sua “escuridão interior”. Mesmo que o segundo momento perca um pouco de intensidade, configurando-se basicamente na execução de músicas e vídeos, Ntando, acompanhada de mais três músicos, demarca seu lugar de fala como mulher, negra, artista.

    Ntando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/Divulgação

    O espaço de impasse posto no espetáculo de Alexandre Dal Farra, a partir da questão de como artistas brancos podem falar sobre racismo, é apropriado por Cele, que parece nos dizer: “Eu, negra, estou habilitada para isto”. Sua Bianca White utiliza-se justamente de toda esta base de preconceito enraizada em nossa sociedade para dar-nos rasteiras, seja quando diz que negros são incapazes de compreender “arte complicada” ou quando oferece Prosecco para que os mesmos possam experenciar algo nunca provado na vida. Simbólico também poder ver esta obra sendo encenada no palco do Itaú Cultural, local onde, tempos atrás, foi estabelecido um importante debate em torno da utilização do black face a partir do espetáculo A mulher do trem, do grupo Os Fofos em Cena.

    Nesses três trabalhos apresentados na mostra, evidencia-se a necessidade de discussão sobre o universo posto.Ao fim das três obras, saímos com a certeza de que a arte antevê as crises interpostas por diferentes sociedades, cabendo a esta o papel de refletir, jogar lupas e talvez apontar caminhos sobre discursos ainda não ditos.

    A MITsp prosseguirá com estas reflexões nesta segunda e terça (20 e 21/3), a partir da realização do seminárioDiscursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, envolvendo importantes pensadores da contemporaneidade no próprio Itaú.Cultural.