• A complexidade de um território familiar

    "Revolução em pixels" foi apresentada pelo diretor no Sesc Vila Mariana. Foto: Guto Muniz/Divulgação"Revolução em pixels" foi apresentada pelo diretor no Sesc Vila Mariana. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Quando a
    MITsp –Mostra Internacional de Teatro de São Pauloanunciou sua grade de programação este ano,certamente despertou curiosidade em grande parte do público sobre a presença de um artista libanês.Não com relação à sua nacionalidade, maspor seconfigurar algo inédito no evento a possibilidade de acompanhar parte do repertório de um mesmo criador.

    Pouco conhecido em nosso país, o multiartista Rabih Mrouéfoimerecedor de uma mostra dentro da própria mostraenos ofertou –com legendas em português –os espetáculosTãopoucotempo(So little time),Revolução empixels (Pixelatedrevolution) eCavalgandonuvens (Riding on acloud), que arrisco apontar como grandes trunfos daMITsp.

    REFLEXÃO
    Ao refletir sobre a noção de territorialidade,ogeógrafo brasileiro Rogerio Haesbaert destaca, em seu livroO mito da desterritorialização, dois sentidos largamente difundidos (inclusive academicamente), que são tributários do latim: o primeiro, referido à terra, toma o território como materialidade; e o segundo relaciona os sentimentos que o território provoca, ou seja, o “(...) medo para quem dele é excluído, de satisfação para aqueles que dele usufruem ou com o qual se identificam”.

    Estas duas noções dialogam profundamente com os espetáculos deRabih, formatados através de “palestras não acadêmicas”. Nas três obras apresentadas, vemos sobre o palco apenas um atorou uma atriz, com composição simplificada no que diz respeito à utilização de artifícios cênicos, investindo imensamente na construção do discurso proferido.

    "Tão pouco tempo" abriu a trilogia com ironias sobre o território. Foto: Guto Muniz/Divulgação"Tão pouco tempo" abriu a trilogia com ironias sobre o território. Foto: Guto Muniz/Divulgação

    EmTãopoucotempo, por exemplo, a atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, conta a história de Deeb Al Asmar, um mártir islâmico ficcional, evidenciando o caráter fetichista/humano. Dentre as três obras, sem dúvida, esta é a que mais carrega ironia no olhar sobre seu território, principalmente quando nos deparamos com a questão: o que fazemos quando descobrimos que nosso objeto de fetiche cai por água abaixo? Até onde reconfiguramos nossa fascinação por algo dito “maior?

    E não conseguimos deixar de pensar sobre Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos...

    REVOLUÇÃO
    Revolução empixels, executada pelo próprio diretor, se apresenta como um tratado sobre o uso da imagem em zonas de conflitos. Se opixel é o menor ponto que forma umaimagem digital, Rabih recorre a vídeos publicados por ativistas sírios em redes sociais, em busca de compreender o horror que vive o país, investigando ponto a ponto.

    Tenciona, portanto, o exercício do olhar mediado por dispositivos de registros (em sua maioria celulares), intermediando a relação entre perseguidos e perseguidores. Dedica-se a ler como os sírios andam construindo suas narrativas sobre os conflitos vivenciados, fugindo dos registros “oficiais” e multidimensionando a ideia de território. Traça assim, um recorte sobre possíveis formas de leitura, sem pretensões de assumir para si o lugar de denunciante de tal barbárie, mas o de compor um pensamento em torno da construção da mesma.

    Na peça-palestra "Revolução em pixels", o próprio diretor lança um olhar sobre as imagens do conflito. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoNa peça-palestra "Revolução em pixels", o próprio diretor lança um olhar sobre as imagens do conflito. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Abra seu
    WhatsApp. Neste momento, em algum grupo, haverá um pequeno vídeo sobre uma barbárie brasileira...

    RELAÇÕES
    EmCavalgandonuvens, é a vez de Yasser Mroué, irmão de Rabih, nos ofertar um novo traçado sobre sua região. Sendo a mais poética das três obras, remontaà trajetória deste indivíduo atingido na cabeça por um atirador, aos 17 anos, e que encontrou na arte a possibilidade de lidar com as sequelas do atentado.

    Se a manipulação da imagem serve como base de construção para os dois trabalhos anteriores, neste, a incapacidade de lidar com ela, de processar a linguagem (marca deixadas pelo tiro), é queé posta em cena. Vemos, então, muito maisdo que uma biografia, mas a definição do quantoas relações de espaço-poder também servem para pensar a territorialidade humana.

    Yasser Mroué relata sua experiência em "Cavalgando nuvens". Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoYasser Mroué relata sua experiência em "Cavalgando nuvens". Foto: Guto Muniz/Divulgação

    A história de Yasser é apenas mais umaentre tantas outras em seu país. Algo comum no Líbano. Neste exato momento, recebo uma ligação com a informação de que meu primo foi alvo de um assalto, entre tantos outros que ocorrem no Brasil, dentro de um ônibus. Que na ausência de um celular para ser entregue, os ladrões atiraram em sua cabeça. Por sorte, a bala que atingiria o mesmo lugar de Yasser, ricocheteou.

    Líbano? Brasil?Rabih Mroué certamente me mostra quea ideia de território expandido não conseguirá sair de minha cabeça por um longo tempo.

  • A potência da MITsp entra em cena

    Chilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/DivulgaçãoChilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/Divulgação

    Nesta terça-feira (14/3), tem início um dos eventos mais esperados no campo das artes cênicas de nosso país: a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que chega à sua quarta edição. No período de uma semana (até 21/3), o público brasileiro poderá se deparar com um importante recorte do que vem sendo produzido mundo afora, a partir da evidência de pautas urgentes a serem discutidas.

    Ainda que a abertura da mostra tenha ficado a cargo do grandioso espetáculo Avante, marche!dos diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, acredita-se que estarão nos espetáculos de menor porte a potência desta edição. A propósito, o Avante, marche! tem o trabalho do compositor Steven Prengels (companhia les ballets C de la B), através do qual quatro atores e sete músicos serão acompanhados por 18 instrumentistas brasileiros (ver programação AQUI).

    Um dos nomes mais esperados é o do libanêsRabih Mroué,ator, dramaturgo e artista visual que estará na MITsp com três obras. Na primeira, intituladaRevolução em pixels (Pixelated revolution), o próprio artistainvestiga, a partir de imagens de Youtube, numa espécie de palestra não acadêmica, as muitas questões que cercam a gravação dos manifestantes sírios, de sua própria realidade, para o resto do mundo. EmTão pouco tempo (So little time), cabe à atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, discutir sobre o fascínio por imagens de líderes mortos, muitas vezes mais interessantes do que quando estão vivos. Por último, emCavalgando nuvens (Riding on a cloud), o ator Yasser Mroué, irmão de Rabih,constrói uma biografia, entremeada pela realidade política, pelas memórias, pelos fatos e pela ficção,carregando sequelas da violência, tão comuns a tantos outros indivíduos no Líbano.

    Outro importante nome do teatro político mundial, o chileno Guillermo Calderón retorna ao Brasil com seu mais recente trabalho,Mateluna(Mateluna).Numa espécie de continuação de sua obra anterior,Calderón parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna, que colaborou com a criação deEscuela, apresentada na MITsp de 2014. Logo depois, ele foi preso pela polícia, acusado de estar envolvido em um assalto a banco e condenado a 16 anos de prisão.

    NEGROS

    Ntando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/Divulgação

    O protagonismo negro também entra na pauta da mostra, com três obras compondo um importante painel sobre o tema: as estreias nacionais de
    A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa,com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol,com dramaturgia e direção de Alexandre Dal Farra.

    Abordando os estereótipos racistas e questionando se existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou se elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero no que quer que façam, a performance-concertoBlack off(Black off), da atriz, cantora e performer Ntando Cele, de Durban, na África do Sul, promete longas filas no Itaú Cultural, sendo este o único espetáculo com distribuição gratuita de ingressos.


    Integra também esta proposição de olhar a realização do seminário Discursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, com a presença depensadoras de distintas áreas do conhecimento a refletir sobre os desdobramentos da escravidão negra e as formas do racismo no Brasil e no mundo.

    Pernambuco estará presente na mostra com o lançamento da TREMA! Revista de Teatro, edição do Negro. Os artigos foram escritos por pensadores que participam das mesas de debate do seminário, como Giovana Xavier e a norte-americana Patricia Hill Collins.

    Estas últimas ações apontam para o importante espaço dedicado pela MITsp ao campo formativo, seja através do Olhares Críticos,sob a curadoria de Luciana Romagnolli e Kil Abreu, com propósito de refletir sobre as dimensões públicas da crise e formas de resistência; seja pelasAções Pedagógicas, sob a curadoria de Maria Fernando Vomero, iniciadas antes mesmo da mostra de espetáculos.

    O acesso às atividades formativas é gratuito, enquanto que os ingressos para os sete espetáculos internacionais, inéditos no Brasil, esgotaram-se pouco tempo depois de serem colocados à venda, restando poucos lugares para os nacionais.

    A Revista Continente mais um ano dedicará espaço exclusivo para cobertura de toda a MITsp. Avante!