• A complexidade de um território familiar

    "Revolução em pixels" foi apresentada pelo diretor no Sesc Vila Mariana. Foto: Guto Muniz/Divulgação"Revolução em pixels" foi apresentada pelo diretor no Sesc Vila Mariana. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Quando a
    MITsp –Mostra Internacional de Teatro de São Pauloanunciou sua grade de programação este ano,certamente despertou curiosidade em grande parte do público sobre a presença de um artista libanês.Não com relação à sua nacionalidade, maspor seconfigurar algo inédito no evento a possibilidade de acompanhar parte do repertório de um mesmo criador.

    Pouco conhecido em nosso país, o multiartista Rabih Mrouéfoimerecedor de uma mostra dentro da própria mostraenos ofertou –com legendas em português –os espetáculosTãopoucotempo(So little time),Revolução empixels (Pixelatedrevolution) eCavalgandonuvens (Riding on acloud), que arrisco apontar como grandes trunfos daMITsp.

    REFLEXÃO
    Ao refletir sobre a noção de territorialidade,ogeógrafo brasileiro Rogerio Haesbaert destaca, em seu livroO mito da desterritorialização, dois sentidos largamente difundidos (inclusive academicamente), que são tributários do latim: o primeiro, referido à terra, toma o território como materialidade; e o segundo relaciona os sentimentos que o território provoca, ou seja, o “(...) medo para quem dele é excluído, de satisfação para aqueles que dele usufruem ou com o qual se identificam”.

    Estas duas noções dialogam profundamente com os espetáculos deRabih, formatados através de “palestras não acadêmicas”. Nas três obras apresentadas, vemos sobre o palco apenas um atorou uma atriz, com composição simplificada no que diz respeito à utilização de artifícios cênicos, investindo imensamente na construção do discurso proferido.

    "Tão pouco tempo" abriu a trilogia com ironias sobre o território. Foto: Guto Muniz/Divulgação"Tão pouco tempo" abriu a trilogia com ironias sobre o território. Foto: Guto Muniz/Divulgação

    EmTãopoucotempo, por exemplo, a atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, conta a história de Deeb Al Asmar, um mártir islâmico ficcional, evidenciando o caráter fetichista/humano. Dentre as três obras, sem dúvida, esta é a que mais carrega ironia no olhar sobre seu território, principalmente quando nos deparamos com a questão: o que fazemos quando descobrimos que nosso objeto de fetiche cai por água abaixo? Até onde reconfiguramos nossa fascinação por algo dito “maior?

    E não conseguimos deixar de pensar sobre Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos...

    REVOLUÇÃO
    Revolução empixels, executada pelo próprio diretor, se apresenta como um tratado sobre o uso da imagem em zonas de conflitos. Se opixel é o menor ponto que forma umaimagem digital, Rabih recorre a vídeos publicados por ativistas sírios em redes sociais, em busca de compreender o horror que vive o país, investigando ponto a ponto.

    Tenciona, portanto, o exercício do olhar mediado por dispositivos de registros (em sua maioria celulares), intermediando a relação entre perseguidos e perseguidores. Dedica-se a ler como os sírios andam construindo suas narrativas sobre os conflitos vivenciados, fugindo dos registros “oficiais” e multidimensionando a ideia de território. Traça assim, um recorte sobre possíveis formas de leitura, sem pretensões de assumir para si o lugar de denunciante de tal barbárie, mas o de compor um pensamento em torno da construção da mesma.

    Na peça-palestra "Revolução em pixels", o próprio diretor lança um olhar sobre as imagens do conflito. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoNa peça-palestra "Revolução em pixels", o próprio diretor lança um olhar sobre as imagens do conflito. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Abra seu
    WhatsApp. Neste momento, em algum grupo, haverá um pequeno vídeo sobre uma barbárie brasileira...

    RELAÇÕES
    EmCavalgandonuvens, é a vez de Yasser Mroué, irmão de Rabih, nos ofertar um novo traçado sobre sua região. Sendo a mais poética das três obras, remontaà trajetória deste indivíduo atingido na cabeça por um atirador, aos 17 anos, e que encontrou na arte a possibilidade de lidar com as sequelas do atentado.

    Se a manipulação da imagem serve como base de construção para os dois trabalhos anteriores, neste, a incapacidade de lidar com ela, de processar a linguagem (marca deixadas pelo tiro), é queé posta em cena. Vemos, então, muito maisdo que uma biografia, mas a definição do quantoas relações de espaço-poder também servem para pensar a territorialidade humana.

    Yasser Mroué relata sua experiência em "Cavalgando nuvens". Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoYasser Mroué relata sua experiência em "Cavalgando nuvens". Foto: Guto Muniz/Divulgação

    A história de Yasser é apenas mais umaentre tantas outras em seu país. Algo comum no Líbano. Neste exato momento, recebo uma ligação com a informação de que meu primo foi alvo de um assalto, entre tantos outros que ocorrem no Brasil, dentro de um ônibus. Que na ausência de um celular para ser entregue, os ladrões atiraram em sua cabeça. Por sorte, a bala que atingiria o mesmo lugar de Yasser, ricocheteou.

    Líbano? Brasil?Rabih Mroué certamente me mostra quea ideia de território expandido não conseguirá sair de minha cabeça por um longo tempo.

  • A polifonia dos feridos, porém em marcha

    "Avante, marche!". Foto: Nereu Jr./Divulgação"Avante, marche!". Foto: Nereu Jr./Divulgação

    Era para ser um início formal, como sempre é. Era para ser um microfone aberto para patrocinadores, apoiadores e representantes de instituições que regem a política cultural de nosso país, estado, município. Isso mesmo! Um microfone aberto para aqueles que, provavelmente nos meses anteriores, enlouqueceram os organizadores do evento com negativas, tratativas cansativas pautadas por impossibilidades e reduções de orçamento em nome da tão falada crise.

    Mas parecem ter chegado a um acordo. Seja pouco, seja muito, chegaram a um acordo. Assim como parecia chegado o momento de fazermos a cena em que nenhuma tensão ocorreu e louvarmos a batalha de ter colocado o festival de pé. Textos prontos, bem-redigidos, talvez ensaiados na frente do espelho. Era pra ser.

    Esqueceram de avisar o público, os artistas. Esqueceram de lembrar que os tempos são outros, que estamos praticamente sob um estado de exceção. O Theatro Municipal de São Paulo, palco visto como "sagrado" por muitos, já não impressiona. Os ternos, a elegância e as ditas boas regras de educação já não limitam este organismo vivo. Estamos feridos, mas em marcha!

    ABERTURA
    Um dos maiores eventos das artes cênicas do país realiza sua abertura, numa terça à noite (14/3), e os titulares da pasta da cultura nas esferas federal, estadual e municipal não comparecem. A questão é simples: o que teria de tão importante acontecendo no país neste dia, que justificasse suas ausências? Ou seria só uma demonstração de covardia por já esperarem as vaias que foram dirigidas aos seus representantes enviados?

    Não é tempo para termos certeza de muitas coisas, a não ser a de que estamos em marcha. Só cabe relatar que a quarta edição da MITsp começou assim: sob gritos, pulsão; sob vida; sob vozes que não querem mais calar.

    Obra foca na vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoObra foca na vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Quanto ao 
    Avante,marche!, escalado para a abertura do evento, seria quase impossível tecer quaisquer considerações sobre o espetáculo sem este maravilhoso prólogo onde tensionamentos políticos foram evidenciados. Ainda mais quando a obra propõe olhar para a vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais, buscando manter-se num único e distinto andamento. Em meio a isso, a metáfora de um trombonista que, por conta de sua doença, precisa se despedir do seu instrumento musical. A agonia deste é grande. Ele está ferido, estamos também feridos, mas marcharemos!

    Os diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, juntamente com o compositor Steven Prengels, nos apresenta uma cena polifônica, fundindo música, dança, teatro e performance. Esta polifonia da companhiales ballets C de la Bexplode, inclusive, na composição textual do trabalho, utilizando-se de diferentes línguas durante a obra. Uma espécie de torre de babel: nosso tempo.

    POLÍTICA
    O espectador contemporâneo exige uma renovada relação social, cultural e política para o evento artístico. Já não temos como deixar de fora do espaço teatral nossas questões mais urgentes. A fala de Haifa Madi, representante do Ministério da Cultura, que foi completamente abafada pela plateia, é um retrato disso. O novo protesto feito pós-espetáculo realizado pelos músicos da Banda Sinfônica de São Paulo que temem o desmonte deste órgão sob a nova gestão do prefeito gari/pedreiro/ciclista também. A paralisação nacional dos trabalhadores um dia após esta abertura corrobora com estas vozes. Houve e haverá muitas marchas. É só o começo.

    No Theatro Municipal, abertura foi de protesto, no lugar das formalidades. Foto: Nereu Jr./DivulgaçãoNo Theatro Municipal, abertura foi de protesto, no lugar das formalidades. Foto: Nereu Jr./Divulgação

  • A potência da MITsp entra em cena

    Chilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/DivulgaçãoChilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/Divulgação

    Nesta terça-feira (14/3), tem início um dos eventos mais esperados no campo das artes cênicas de nosso país: a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que chega à sua quarta edição. No período de uma semana (até 21/3), o público brasileiro poderá se deparar com um importante recorte do que vem sendo produzido mundo afora, a partir da evidência de pautas urgentes a serem discutidas.

    Ainda que a abertura da mostra tenha ficado a cargo do grandioso espetáculo Avante, marche!dos diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, acredita-se que estarão nos espetáculos de menor porte a potência desta edição. A propósito, o Avante, marche! tem o trabalho do compositor Steven Prengels (companhia les ballets C de la B), através do qual quatro atores e sete músicos serão acompanhados por 18 instrumentistas brasileiros (ver programação AQUI).

    Um dos nomes mais esperados é o do libanêsRabih Mroué,ator, dramaturgo e artista visual que estará na MITsp com três obras. Na primeira, intituladaRevolução em pixels (Pixelated revolution), o próprio artistainvestiga, a partir de imagens de Youtube, numa espécie de palestra não acadêmica, as muitas questões que cercam a gravação dos manifestantes sírios, de sua própria realidade, para o resto do mundo. EmTão pouco tempo (So little time), cabe à atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, discutir sobre o fascínio por imagens de líderes mortos, muitas vezes mais interessantes do que quando estão vivos. Por último, emCavalgando nuvens (Riding on a cloud), o ator Yasser Mroué, irmão de Rabih,constrói uma biografia, entremeada pela realidade política, pelas memórias, pelos fatos e pela ficção,carregando sequelas da violência, tão comuns a tantos outros indivíduos no Líbano.

    Outro importante nome do teatro político mundial, o chileno Guillermo Calderón retorna ao Brasil com seu mais recente trabalho,Mateluna(Mateluna).Numa espécie de continuação de sua obra anterior,Calderón parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna, que colaborou com a criação deEscuela, apresentada na MITsp de 2014. Logo depois, ele foi preso pela polícia, acusado de estar envolvido em um assalto a banco e condenado a 16 anos de prisão.

    NEGROS

    Ntando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/Divulgação

    O protagonismo negro também entra na pauta da mostra, com três obras compondo um importante painel sobre o tema: as estreias nacionais de
    A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa,com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol,com dramaturgia e direção de Alexandre Dal Farra.

    Abordando os estereótipos racistas e questionando se existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou se elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero no que quer que façam, a performance-concertoBlack off(Black off), da atriz, cantora e performer Ntando Cele, de Durban, na África do Sul, promete longas filas no Itaú Cultural, sendo este o único espetáculo com distribuição gratuita de ingressos.


    Integra também esta proposição de olhar a realização do seminário Discursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, com a presença depensadoras de distintas áreas do conhecimento a refletir sobre os desdobramentos da escravidão negra e as formas do racismo no Brasil e no mundo.

    Pernambuco estará presente na mostra com o lançamento da TREMA! Revista de Teatro, edição do Negro. Os artigos foram escritos por pensadores que participam das mesas de debate do seminário, como Giovana Xavier e a norte-americana Patricia Hill Collins.

    Estas últimas ações apontam para o importante espaço dedicado pela MITsp ao campo formativo, seja através do Olhares Críticos,sob a curadoria de Luciana Romagnolli e Kil Abreu, com propósito de refletir sobre as dimensões públicas da crise e formas de resistência; seja pelasAções Pedagógicas, sob a curadoria de Maria Fernando Vomero, iniciadas antes mesmo da mostra de espetáculos.

    O acesso às atividades formativas é gratuito, enquanto que os ingressos para os sete espetáculos internacionais, inéditos no Brasil, esgotaram-se pouco tempo depois de serem colocados à venda, restando poucos lugares para os nacionais.

    A Revista Continente mais um ano dedicará espaço exclusivo para cobertura de toda a MITsp. Avante!

  • Carta ao meu tio

    "Mateluna", da Fundación Teatro a Mil. Foto: Felipe Fredes/Divulgação"Mateluna", da Fundación Teatro a Mil. Foto: Felipe Fredes/Divulgação


    Isto não é uma crítica, é um relato pes
    soal. 
    Eu gostaria de começar este texto de outra forma. Gostaria de falar apenas sobreMateluna, mas toscas situações invadem nosso cotidiano. Os últimos dias não estão sendo fácil, talvez os últimos anos.

    Era domingo, 19 de março. E aquele tio que um dia você imaginou ter sido o único que poderia construir uma consciência política manda umWhatsApp para o grupo da família. Algo dito pelo General Figueredo, apontando que em1964, ano do golpe militar, nascia, sim, a democracia em nosso país. Nós, povo, é que não entendíamos.

    Respondo rapidamente. Saio do grupo, já não tenho paciência para isso. Vou ao teatro. Vou ao encontro de Guillermo Calderón, diretor teatral chileno que, nos últimos anos, tem se dedicado a repensar o passado político de seu país. Repensar de maneira clara, objetiva esob um ponto de vista bastante explícito: o da esquerda, o que se alinhou frente à ditadura militar de Pinochet.

    Apesar dos pesares, estava feliz.Faziasete anosque havia assistido ao trabalho deste autor. Seu título eraNeva, obra que o lançou ao mundo. De lá pra cá, seguiram outras tantas,queacompanhei apenas através de publicações.

    Mateluna, apresentada nesta edição daMostra Internacional de Teatro de São PauloMITsp, remontaà história pessoal de Jorge Mateluna, guerrilheiro político que contribuiu com Calderón e seus atores na criação de uma obra anterior a esta, intituladaEscuela. Meses depois, Mateluna foi preso, acusado de integrar uma quadrilha de ex-guerrilheiros políticos que tinham assaltado um banco em seu país.

    A peça começa. O texto te faz navegar por realidade e ficção, dentro de um inteligente jogo onde os atores dizem ter feito diferentes espetáculos na tentativa de lidar com este “trauma”. Obra precisa, disparadora de inúmeras questões.

    "Mateluna" repensa passado político chileno. Foto: Felipe Fredes/Divulgação"Mateluna" repensa passado político chileno. Foto: Felipe Fredes/Divulgação

    E eles lá pensando em como se posicionar eticamente diante de Mateluna;e eu aqui, em minha cadeira, tentando ainda encontrar um lugar afetivo para meu tio...

    Penso...Foi ele que me levou ao primeiro concerto. Foi ele que me emprestou sua coleção de música clássica publicada pelaRevista Caras... Ele é o único, dentre os oito que tenho, que se esforça em acompanhar as atividades artísticas da cidade onde vive....O que deu errado, meu deus?

    Pausa. Enquanto Guillermo tece considerações sobre a importância do engajamento político e o enfrentamento de ditaduras, agora, eu que já não estou no grupo da família, recebo novoinbox como título:Verdades sobre a ditadura militar que o seu professor não contaAlgo que dizia não ter havido corrupção no Brasil durante este período e que todos os militantes presos, torturados e desaparecidos eram no fundo baderneiros. Que inferno! Ele está surtado? Tio, você realmente me conhece?

    Resposta curta. Enviei o endereço da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco. Disse que lá talvez tivesse material suficiente para ele repensar o seu país. Novo bloqueio deWhatsApp.

    Neste momento, você que está lendo deve estar pensando que besteira toda esta escrita. Relatos como este podem ser encontrados em páginas doFacebook de qualquer dito “militante. Não sei.

    Quando a peça acaba, percebo que,em vez de nutrir ódio pelo meu tio, queria, na verdade, tê-lo por perto, ao meu lado, para ver e ouvir as palavras de Calderón.

    Este texto talvez seja um pedido de desculpas. Desculpas por este mundo onde falsas-verdades viram verdades-verdades, basta sabermos manipular bem os dados. Não é isso, Calderón?

    Hoje, 21 de março, é a última sessão deMateluna na MITsp. O festival chega ao fim. Quem dera ter condiçõesdete trazer até aqui, tio. Você estaria aberto para mim, para Calderón?

  • O protagonismo negro sobe ao palco

    "A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação"A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação

    Uma das marcas desta quarta edição da MITsp está nos trabalhos que evidenciam o protagonismo negro e a discussão em torno do racismo. Sob diferentes abordagens, o público da mostra teve a oportunidade de acompanhá-los: foram duas estreias brasileiras na última sexta (17/3), além de uma obra internacional.

    A primeira, intituladaBranco: o cheiro do lírio e do formol,possui direção de Janaina Leite e Alexandre Dal Farra, que também assina a dramaturgia da obra. Branco não é um espetáculo fácil de ser processado pela plateia. A partir de uma dramaturgia extremamente fragmentada, o autor evidencia seu próprio impasse, sendo branco, ao ter que lidar com o tema do racismo em nosso país. Uma obra dentro de outra obra. Camadas dramatúrgicas são adicionadas, desde as primeiras versões do texto a trechos de ensaios de outras possíveis versões. Como ponto proeminente, a urgência e violência das palavras, que são marcas do autor.

    Dal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoDal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Na segunda estreia, A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa
    , o diretor Eugênio Lima e 15 performers negros retomam o texto do alemão Heiner Müller (A missão: lembrança de uma revolução),aproximando sua proposta à escrita em 1979. Vale lembrar que este grupo/espetáculo surge da performance intitulada Em legítima defesa, realizada na edição passada em diferentes espaços da mesma mostra. Tal qual a performance do ano passado, o espetáculo adquire para si o tom de grito de protesto, pautado por um discurso emergencial e perpassado, inclusive, a ocupação destes espaços simbólicos por performers negros. Entretanto, com mais de três horas de duração, a obra peca pelo excesso, não em relação à quantidade de temas e questões, mas à extensão demasiada de cada bloco de cena.

    Para Müller, a voz da revolução que ainda pode sacudir o mundo ocidentalizado surgirá da  Ásia, a África ou América Latina. Se os brasileiros compuseram parte desta voz, nesta MITsp, coube àartista sul-africana Ntando Cele, com Black off, o papel de mais tranquila resolução desta tríade, comungando com as questões raciais impostas pela “branquitude” de Dal Farra e, ao mesmo tempo, performando sobre questões emergenciais do ser negro de A missão.O espetáculo, dividido em dois blocos, traz, em seu primeiro momento, um humor desestruturador de plateias, com requintes de acidez. Somos postos diante deBianca White, alter ego de Cele, que tentar tirar o negro de sua “escuridão interior”. Mesmo que o segundo momento perca um pouco de intensidade, configurando-se basicamente na execução de músicas e vídeos, Ntando, acompanhada de mais três músicos, demarca seu lugar de fala como mulher, negra, artista.

    Ntando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/Divulgação

    O espaço de impasse posto no espetáculo de Alexandre Dal Farra, a partir da questão de como artistas brancos podem falar sobre racismo, é apropriado por Cele, que parece nos dizer: “Eu, negra, estou habilitada para isto”. Sua Bianca White utiliza-se justamente de toda esta base de preconceito enraizada em nossa sociedade para dar-nos rasteiras, seja quando diz que negros são incapazes de compreender “arte complicada” ou quando oferece Prosecco para que os mesmos possam experenciar algo nunca provado na vida. Simbólico também poder ver esta obra sendo encenada no palco do Itaú Cultural, local onde, tempos atrás, foi estabelecido um importante debate em torno da utilização do black face a partir do espetáculo A mulher do trem, do grupo Os Fofos em Cena.

    Nesses três trabalhos apresentados na mostra, evidencia-se a necessidade de discussão sobre o universo posto.Ao fim das três obras, saímos com a certeza de que a arte antevê as crises interpostas por diferentes sociedades, cabendo a esta o papel de refletir, jogar lupas e talvez apontar caminhos sobre discursos ainda não ditos.

    A MITsp prosseguirá com estas reflexões nesta segunda e terça (20 e 21/3), a partir da realização do seminárioDiscursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, envolvendo importantes pensadores da contemporaneidade no próprio Itaú.Cultural.

  • Por uma possibilidade de sentir

    Cena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoCena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/Divulgação

    O teatro produzido na Alemanha, nos últimos anos, vem sendo marcado por experimentações estéticas pautadas pela radicalidade de formas e por composições cênicas onde a violência adquire novos papéis. O ser humano em seu pior papel, exposto em cenas impactantes que tentam dar conta do estado atual de nossa sociedade, como o uso excessivo de sangue, entre outros artifícios. Grandes nomes, como os diretores Frank Castorf e ThomasOstermeier, nos deram provas poéticas, recentemente, em nosso país.

    AMITsp 2017 resolveu investir em um nome pouco conhecido do público brasileiro para esta quarta edição: Susanne Kennedy.A grata surpresa da mostra, junto aoMünchner Kammerspiele, um dos teatros mais importantes da Alemanha, trouxe ao BrasilPor que o Sr. R. enlouqueceu?, obra criada a partir do filme deRainer Werner Fassbinder.

    Surpresa por nos apresentar uma linha de trabalho que se distancia dos renomados diretores citados e que parecem definir o modus operandialemão. Não há como negar a brutalidade existente em Sr. R., entretanto esta é operada por Susanne sob outro víeis. Já não encontramos composições que chocam a maioria dos espectadores, intensa e cortante. A diretora, tal qual o cineasta, procura realizar um compêndio de patologias cotidianas. Blocos de cena marcados pela lentidão, pela fala que parece ser emitida em tons e momentos impróprios, num cenário que pouco sofre modificação.

    A base de atuação do espetáculo é construída como se os atores fossem uma espécie de manequins, utilizando-se de máscaras de látex e texto dublado, além de dialogar com os postulados de Gordon Craig. Navega no estreito limite entre realidade e artificialidade do ser e estar em cena, compreendendo também quecaracterísticas “demasiadamente humanas” podem ser obstáculos à expressividade mais profunda.

    Ainda que não seja perceptível a rigidez do treinamento preconizada por Craig ou de outros pesquisadores, como omímico e ator francêsÉtienneDecroux, Susanne parece também pensar sobre a definição deste último para sua encenação: uma“marionete evocada de nossos sonhos não deverá fazer rir ou enternecer, como fazem os brinquedos de uma criança pequena. Deverá inspirar terror e piedade, e dali elevar-se até o sonho”.

    E assim, acaba por nos suscitar a ideia de que ao pensarmos na macroestrutura, toda nossa sociedade encontra-se em estado de marionetes, principalmente em relação ao capital e suas demandas cotidianas. Tudo que o Sr. R buscava era um disco, uma música, uma possibilidade de sentir. Nós não?

    O ritmo proposto pelo espetáculo parece entediar parte da plateia, ao ver a mesma estrutura proposta ser repetida ao longo de mais de duas horas. Mas que ritmo seria este que estamos acostumados e que tomamos como referência para nosso dia a dia? Não seria a mesma estrutura que a própria Kennedy tece considerações?

    A certeza é de que Susanne está atenta a absolutamente tudo, desde o cenário teatral em que vive à sociedade para qual cria, operando, com maestria, entre as frestas de sua percepção.