• A falta que faz a sinceridade de Kurt Cobain

    Kurt Cobain. Foto: Frances Bean Cobain/DivulgaçãoKurt Cobain. Foto: Frances Bean Cobain/Divulgação

    Não fosse o suicídio em 1994, o vocal original e inesquecível do Nirvana completaria 50 anos em fevereiro de 2017, este tempo de bandas feitas para agradar o mainstream

    No início dos anos 1990, o mainstream musical era dominado pela influência das grandes gravadoras. Nos poucos anos anteriores à popularização da internet e, posteriormente, com os meios de distribuição peer-to-peer que forçaram a indústria musical a uma reformulação, o principal veículo para divulgação de música continuava sendo a MTV.

    As gravadoras e seus artistas de sucesso adotavam, em grande parte, o modelo de produção em série de gravadoras como Motown, em que a criação de sucessos dependia da confluência de talentos através do dinheiro. Quer ter o melhor disco? Então compre as melhores composições, contrate os melhores músicos, o melhor estúdio e os melhores produtores. Superprodutores da época incluíam LA Reid, Babyface, Nile Rodgers e Rick Rubin.

    Uma parcela do público parecia cansada da manipulação do mercado musical e estava sedenta por um tipo de música que fosse mais sincera, mais urgente e sem tanta interferência do marketing.

    1991: O ANO EM QUE O PUNK ESTOUROU
    No início dos anos 1990, uma cena musical que existia à margem do mainstream estava prestes a explodir para além das rádios colegiais norte-americanas. Bandas locais, que gravavam discos de baixíssimo orçamento em pequenos selos, eram divulgadas através dessas rádios. Durante a década de 1980, nomes como R.E.M., Black Flag e Replacements perambulavam o país em furgões, criando um circuito de bares e boates que abrigavam os artistas independentes que viriam a ser chamados de “rock alternativo”. O mesmo circuito abrigava bandas de hardcore, como Minor Threat e Hüsker Dü, e bandas experimentais, como Sonic Youth, Dinosaur Jr. e Beat Happening.

    O rock do mainstream, transmitido pela MTV, era reminiscente de uma cena que acontecera em Los Angeles, que se convencionou chamar de hair metal, representada por bandas como Poison, Ratt e Motley Crue. Rapazes vestindo roupas apertadas e brilhantes, com cabeleiras armadas em permanentes, cantavam letras sexistas em clipes nos quais as strippers são a representação do sexo feminino. A maior banda do mundo na época havia saído diretamente desta cena. Os Guns n' Roses acabavam de fazer o lançamento mais megalômano que qualquer banda viria a perpetrar a seus fãs, com Use your illusion, dois álbuns duplos lançados no mesmo dia.

    Algumas poucas bandas escapavam do clichê, como U2 (que estava usando sua popularidade como arma midiática de protesto na turnê Zoo TV) e Metallica (uma banda de metal que alcançara repentino aumento de magnitude após o lançamento de seu Black album). A primeira das bandas a quebrar a barreira do rock alternativo era R.E.M., uma das favoritas de Kurt Cobain, graças ao sucesso arrasador de Losing my religion.

    O documentário de Dave Markey 1991: The year punk broke, retrata o momento pivotal em que uma turnê de festivais europeus pela banda Sonic Youth atrai públicos de milhares de pessoas para shows de Dinosaur Jr, Babes in Toyland, Gumball, Ramones e uma banda estranha que estava prestes a lançar seu primeiro disco por uma grande gravadora: o Nirvana.

    SMELLS LIKE TEEN SPIRIT
    No segundo semestre de 1991, foi lançada a maior música do Nirvana e da cena que ajudou a estabelecer, junto a bandas como Pearl Jam, Soundgarden, Mudhoney e Alice In Chains, o que se convencionou chamar de grunge. O clipe de Smells like teen spirit é uma versão atualizada dos clipes da Twisted Sister, em que um adolescente sempre destrói a paz familiar e suburbana com o poder do rock 'n' roll. Mas os símbolos foram atualizados.



    Um tênis Converse de cano longo acompanha o ritmo de um riff de guitarra sobre o degrau de madeira de uma arquibancada de quadra de basquete. Uma tomada panorâmica revela uma banda liderada por um rapaz apático murmurando uma letra ininteligível, sob cabelos desgrenhados que cobrem seus olhos. Sua voz se transforma em um grito desesperado no refrão, acompanhada pelo riff de guitarra distorcido e bateria inacreditavelmente pesada de Dave Grohl, algo que não se ouvia desde John Bonham. Ao longo da narrativa, a apresentação escolar se transforma em um tumulto generalizado, com direito a quebra-quebra e incêndio, em meio a cheer leaders que ostentam em seus uniformes a letra A inscrita em um círculo, como se a anarquia já estivesse arraigada em seus corações, esperando apenas o momento de aflorar.

    Em seu amor pelos Pixies, Cobain tentou reproduzir a dinâmica usada em suas canções, que ora são silenciosas e suaves, ora são altas e pesadas. Admitidamente um truque, a mesma dinâmica foi também usada em Lithium, Come as you are, In bloom, Pennyroyal tea, Milk it, entre outras. Provavelmente uma analogia a uma bipolaridade não diagnosticada, embora severamente medicada, do compositor, o quiet-loud-quiet se tornou a marca musical mais influente do Nirvana.

    A busca de grandes gravadoras por bandas como Red Hot Chilli Peppers, Sonic Youth e Jane's Addiction já indicava um interesse da indústria em explorar esta cena de música independente. É provável que, mesmo que o Nirvana não tivesse estourado em 1991, Eddie Vedder estampasse a capa da revista Time de 25 de outubro de 1993.

    Capa com o vocalista Eddie Vedder, do Pearl JamCapa com o vocalista Eddie Vedder, do Pearl Jam

    É possível dizer que o Nirvana acabou sendo eleito como porta-voz da música alternativa em sua incursão no mainstream porque incorporava vários aspectos das bandas alternativas. Ela era pesada e abrasiva como Butthole Surfers, mas também podia fazer melodias delicadas e assobiáveis como os Vaselines. Era também capaz de ser experimental como o Yo La Tengo e lo-fi como as bandas da K Records. E ainda tinha ótimas letras, proferidas com a urgência e franqueza da melhor tradição de cantores-compositores americanos como Patti Smith e Michael Stipe.

    Cobain era mais do que apenas o Nirvana. Ele era um porta-voz empolgado da música indie, e ajudou a promover bandas como Meat Puppets, Beat Happening e Bikini Kill, enquanto trazia de volta à relevância o Velvet Underground, Os Mutantes e Neil Young, que inspirou o visual grunge.

    O estilo "saído da garagem" do Nirvana inspirou o visual "grunge" dos anos 1990O estilo "saído da garagem" do Nirvana inspirou o visual "grunge" dos anos 1990

    APROPRIAÇÃO
    O sucesso do grunge possibilitou a evidência de bandas que já existiam antes do movimento e possuíam similaridades estéticas tangenciais, como Green Day e Smashing Pumpkins. Também deu cabimento ao surgimento de várias bandas de imitadores descarados, promovidos pelas gravadoras com a promessa de serem “o novo Nirvana”, como Stone Temple Pilots, Bush e Matchbox 20.

    O revival ideal do it yourself com três acordes do punk tornou aceitáveis incursões na pretensão e chatice, por bandas como Mogwai e Sigur Rós, sem nenhum traço do virtuosismo técnico de Emerson, Lake and Palmer ou Yes.

    A apropriação da linguagem quiet-loud pelo mainstream foi avassaladora. A dinâmica tomou conta das rádios durante décadas, influenciando o nascimento de um gênero musical muito do cafuçu, o “Nu Metal”, com bandas de rapazes sarados e tatuados, como Korn e Limp Bizkit.Para além do rock, artistas pop também usaram e abusaram do recurso, como Alanis Morissette, Avril Lavigne, Shakira (que começou com pose de roqueira revoltada) e até mesmo a campeã do American Idol, Kelly Clarkson.



    Um ambiente em que o Nirvana (uma banda sem uma molécula sequer de groove) não teve nenhuma influência foi o da música negra. Preocupado com seus próprios dramas, como o assassinato de Tupac Shakur no mesmo 1994 em que morreu Kurt Cobain, o hip-hop continuou sua trajetória para se estabelecer como o maior movimento cultural do início deste século.

    O INDIE EM 2017
    Durante algum tempo, o underground pareceu se expressar de maneira mais honesta através da música eletrônica. Até que também esta linguagem fosse apropriada pelo mainstream, e hoje ouvimos em festivais de EDM apenas música dos Top 40, remixada.

    Cúmulo dos cúmulos, a música alternativa agora também passou a ter seus “superprodutores”. O Nirvana deu seu toque de midas a produtores que, hoje, são dos mais requisitados da indústria musical, como Jack Endino, Butch Vig e Steve Albini. Mas, hoje, quando uma gravadora quer investir em algum novo artista de sonoridade independente, costuma escalar também John Congleton (Unknown Mortal Orchestra, Amanda Palmer, Angel Olsen, Franz Ferdinand, St. Vincent, Spoon, The War On Drugs), Dave Fridmann (Flaming Lips, Weezer, Mercury Rev, Café Tacuba, Mogwai, MGMT, Tame Impala) e Nigel Godrich (Radiohead, Beck, Pavement, Air).

    A música alternativa de hoje é muito apegada a rótulos e vaidades, e não parece que existe ninguém se arriscando a ser sincero como Kurt Cobain era, por medo de não ser mais cool. O canadense Mac DeMarco, autor de canções pop delicadas repletas de uma guitarra dissonante, que é sua maior característica, em recente passagem por Olinda para um show no Clube Atlântico, pareceu envergonhado e constrangido de suas composições, para depois se atirar em uma jam session gratuita onde tirou onda de músicas do Nirvana a Smiths. E em um recente episódio do (ótimo) podcast Song exploder, os membros da banda sueca Peter Bjorn and John explicaram como compuseram e gravaram o hit Young folks, de 2006, e, sem querer, esculhambaram todas as características da música. “Tentamos fazer uma bateria bem idiota”, “a melodia é idiota”, “o som do baixo era ruim”. Bem, a música foi um sucesso mundial, talvez os idiotas sejam os músicos.

    COBAIN AOS 50
    Desde a morte de Kurt Cobain, já foram dedicados a ele vários livros, como Heavier than heaven (Charles R. Cross, 2001), e documentários, como Kurt and Courtney (Nick Broomfield, 2001), About a son (A. J. Schnack, 2009) e Montage of Heck (Brett Morgen, 2015). As narrativas em torno da vida de Cobain são, em sua maioria, sombrias, como a história de que Something in the way foi inspirada em dias em que o músico viveu debaixo de uma ponte e da “menina retardada” com quem ele perdeu sua virgindade. Amigos próximos, como o comediante Bobcat Goldthwait e Buzz Osborne, da banda Melvins, já refutaram essas histórias, dizendo que Cobain era tão averso à fama que inventava essas coisas para chocar os repórteres.

    Nos últimos meses de sua vida, parecia que o Nirvana não iria durar mais muito tempo. Como fica evidente em Hit so hard (2011), documentário biográfico da baterista do Hole Patti Schemel, o guitarrista não tinha muita convivência social com Dave Grohl e Krist Novoselic, e estava em busca de novos parceiros musicais. O vocalista do R.E.M. Michael Stipe atesta que ele e Cobain estavam combinando um projeto de colaboração musical quando de seu suicídio. Kurt ouviu grande parte das demos de Monster, disco que o R.E.M. viria a lançar em setembro de 1994.

    O In utero, de 1993, foi gravado com instrumentos afinados meio tom abaixo do padrão, o que deu ao disco um som ainda mais pesado que o de Nevermind. Mas a escolha pela afinação provavelmente não teve motivação estética, pareceu uma tentativa de poupar a voz de Cobain dos gritos agudos e longos que são a assinatura do som da banda.

    Uma luz sobre o caminho que o compositor tomaria se tivesse sobrevivido a 1994 veio à tona com a publicação, em 2011, de Do Re Mi, um rascunho de canção, na caixa With the lights out. Acompanhado apenas por seu violão, Kurt entoa uma melodia cheia de possibilidades.



    A ausência de Kurt Cobain na cena musical de hoje é sentida pela falta de artistas originais e sinceros como ele era, e também por sua postura antagônica ao mainstream. Um Cobain mais maduro provavelmente teria mais desenvoltura perante a mídia, como tinha John Lennon, e certamente usaria seu sucesso como mais uma forma de expressão criativa.

  • Um ano inesquecível para o rock’n’roll

    The Doors: banda de Los Angeles abriu o ano de 1967 com um disco arrebatador. Foto: Joel Brodsky/reproduçãoThe Doors: banda de Los Angeles abriu o ano de 1967 com um disco arrebatador. Foto: Joel Brodsky/reprodução

    Há 50 anos, eram lançados os discos de estreia de The Doors, Velvet Underground, Jimi Hendrix e Pink Floyd, que promoveram uma revolução total no gênero


    Quando Lou Reed morreu, aos 71 anos, serenamente em sua casa, tendo ao lado sua esposa, Laurie Anderson, era uma manhã de domingo. Ele partiu em 23 de outubro de 2013, no mesmo dia ao qual se referiu emSunday morning, faixa de abertura deThe Velvet Underground & Nico, disco que, lançado há 50 anos, deu início à sua trajetória musical. Embora tenha abordado as drogas em faixas comoHeroin eI’m waiting for the man, contrariou o que se esperava dele, morrer jovem e em decorrência do vício, como Jimi Hendrix e Jim Morrison, ícones do rock que também estrearam em disco em 1967, mas morreram precocemente aos 27 anos, fulgurantes e fugazes estrelas de um ano-chave para a música.

    Não se sabe se foi uma conjunção astral, uma coincidência ou o resultado da linha evolutiva do rock aliada a uma revolução comportamental, ou tudo isso junto, mas aquele ano ficou assinalado por lançamentos memoráveis, comoSgt. Pepper`s Lonely Hearts Club Band eMagical mystery tour, dos Beatles,Between the buttons eTheir satanic majesties’ request, dos Rolling Stones,Younger than yesterday, dos Byrds,Sell out, do Who. Além desses, foram lançados os primeiros álbuns do Kinks, Van Morrison e David Bowie. No entanto, as estreias notáveis ligadas ao rock foram as do Velvet Underground, Jimi Hendrix, Pink Floyd e The Doors.

    O álbum de estreia do Doors, autointitulado, iniciou, em janeiro daquele ano, a sequência de discos que transformariam 1967 num marco para o rock. Com nome inspirado no livroAs portas da percepção, de Aldous Huxley, sobre suas experiências com drogas psicoativas, título, por sua vez, retirado de uma frase do poeta inglês William Blake (“Quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito”), a banda abria as portas do gênero musical para as possibilidades sonoras que despontariam.

    Caracterizado pelo duelo entre o teclado de Ray Manzarek e a guitarra de Robby Krieger sobre a bateria jazzística de John Densmore, o disco começa com a protopunkBreak on through, engloba o pop barrocoThe cristal ship, a música de vaudevilleAlabama song(Whisky bar),a sedutoraLight my fire,ocover do bluesBlack door man, e encerra com a psicodelia épica e hipnótica protagonizada pelo canto majestoso de Jim Morrison emThe end – faixa que, em 1979, abreApocalipse now, de Francis Ford Coppola, uma ironia, pois o cantor, antes de montar o grupo, formou-se em Cinema na Universidade da Califórnia.

    Após a morte de Morrison, em 1970, a banda ainda lançou três discos, mas sem a mesma repercussão. Em setembro de 1981, aRolling Stone o estampou, em sua capa – com a manchete “Ele é quente, ele é bonito e ele está morto” – uma prova da crescente adoração em torno da banda e de seu líder. A mística foi estimulada ainda porThe Doors – O filme (1991), de Oliver Stone, que angariou uma nova legião de fãs.

    Leiamatéria na íntegra na edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

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    EXTRA:

    Assista ao vídeo de Andy Wahrol de ensaio da Velvet em 1966: