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Cobertura

Um festival de resistência e recomeços

Janela Internacional de Cinema do Recife retorna em sua 11ª edição reduzido quase à metade e com (re)cortes inerentes ao Brasil de hoje

TEXTO Manu Falcão

06 de Novembro de 2018

'Central do Brasil', de Walter Salles, é um dos filmes escolhidos para a mostra de clássicos nesta edição

'Central do Brasil', de Walter Salles, é um dos filmes escolhidos para a mostra de clássicos nesta edição

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online | nov 2018]

Com o passar desta década
, os outubros e novembros tornaram-se costumeiros meses de espera para a chegada do Janela Internacional de Cinema do Recife. Em 2018, os ritos de quem frequenta o festival já são bem-conhecidos – das prematuras e intermináveis filas na bilheteria do Cine São Luiz, nas quais os desassossegados esperam adquirir os ingressos antecipados de seus filmes de escolha, às eventuais filas para as sessões, onde se discute os filmes assistidos e os que virão.

Há, também, o café no mezanino, os interlúdios para comer algo ou tomar uma cerveja enquanto se “curia” o Rio Capibaribe; os debates com os cineastas convidados, as festas que seguem as últimas exibições de sexta-feira e, quando o cinema encerra suas atividades do dia, o deslocamento grupal de transeuntes na Rua da Aurora em direção à Rua Mamede Simões – um aglomerado de bares recifenses, onde se estende qualquer prosa.

Esses pequenos hábitos adornam uma identidade visual já inerente ao Janela, festival onde se prevalece a discussão sobre o cinema e as imagens que suscitam em seu tempo. A arte oficial – assinada nas últimas edições pela artista Clara Moreira, que já colaborou com a Continente – geralmente alude aos espaços da cidade em um olhar que prenuncia seu fim, em tom apocalíptico. Já vimos o Edifício Caiçara se despedaçar diante de uma mulher montada em um tubarão; uma nave espacial pairar sobre a Avenida Guararapes, abduzindo quem por ali passava; e, no ano passado, um monstruoso inseto provocar um cataclismo na Avenida Conde da Boa Vista, pelos entornos do Cine São Luiz.

Apesar de tudo, 2018 não é um ano como os outros; o Janela, tampouco.

Nesta segunda-feira (5/11), após muita espera, o festival anunciou sua 11a programação, que ocorre mais uma vez no São Luiz e nas duas salas do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Casa Forte/Museu e Derby). Desta vez, em decorrência aos cortes orçamentários que atingiram os festivais de cinema no país, o Janela ocorre sem os 10 dias de praxe – seu formato foi reduzido quase à metade, abarcando cinco dias (de 7 a 11/11) e 50 filmes, de curta e longa-metragem.

Na delicada arte de Clara, há menos informações do que em suas antigas, sendo apenas um fundo rosa-claro em volta do que percebemos ser, justamente, a vitrine do Cine São Luiz, onde se colocam os pôsteres dos filmes em cartaz. Mas em vez de um anúncio, vemos florescer um pequeno jardim. Aqui, a criação da artista não parece remeter tanto a uma ideia de fim de mundo, e sim ao que vem depois – o XI Janela Internacional de Cinema do Recife é, pois, um recomeço.


Pôster oficial do festival em 2018, por Clara Moreira.
Imagem: Reprodução

Ainda que não possa acontecer nos moldes antigos – e em um momento de efervescência política que parece nos distanciar de todo o resto –, a existência do XI Janela agora é um retorno sintomático a um gesto que permeou o festival em cada edição: o ato de se reunir coletivamente para assistir a filmes nacionais e internacionais contemporâneos, em comunhão com os clássicos selecionados, e poder dialogar acerca do que essas imagens evocam. Questioná-las e absorvê-las enquanto imagens do nosso tempo; e entendê-las, também, como ressurgências de tempos outros. Em 2018, ano em que muito se viu e muito se filmou, a permanência desse exercício nada mais é do que uma forma de resistir.

Adelante, e ao cinema.

PROGRAMAÇÃO
Ainda sobre as provocações incutidas nesses afloramentos imagéticos, é notória a escolha de Central do Brasil (1998, dir. Walter Salles), que completa 20 anos em 2018, para a mostra Clássicos. Destaca-se, também, a mostra Brasil distópico vol. I, formada por quatro filmes de ficção científica que ilustram distopias que culminam dos temores coletivos de suas épocas. São eles: Conversas do Maranhão (1983), de Andrea Tonacci; Abrigo nuclear (1981), de Roberto Pires; Amor e desamor (1966) e Brasília, capital do século (1959), ambos de Gerson Tavares. 

Ainda, filmes do circuito internacional também figuram nessa edição, como a obra mais recente de Jean-Luc Godard, Imagem e palavra (2018); o vencedor da Palma de Ouro, em Cannes, Assunto de família (2018, dir. Hirokazu Kore-eda), e o russo Verão (2018, dir. Kirill Serebrennikov).

Os ingressos podem ser adquiridos nas bilheterias dos cinemas São Luiz e da Fundação, bem como no Sympla. Confira a programação completa AQUI.

Em tempo: como nos anos anteriores, a Continente estará presente fazendo a cobertura do festival. Acompanhe por aqui e pelo nosso perfil do Instagram.

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