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Quando governo intercede em relações de afeto

Depois de ser proibido em seu país e rodar em vários festivais, filme cubano 'Santa y Andrés' é exibido no Brasil pelo 'Cine Ceará', mas continua enfrentando restrições

TEXTO Júlio Cavani

11 de Agosto de 2017

'Santa y Andrés' retrata a relação de afeto entre um escritor homossexual e uma mulher a serviço do governo

'Santa y Andrés' retrata a relação de afeto entre um escritor homossexual e uma mulher a serviço do governo

Foto Divulgação

Censurado em Cuba, o longa-metragem Santa y Andrés, do diretor cubano Carlos Lechuga, foi exibido no Brasil pela primeira vez na programação do Cine Ceará*. O filme já participou de mais de 40 festivais internacionais e ganhou prêmios, mas continua inédito no próprio país por tempo indeterminado.

A primeira projeção em Cuba ocorreria no Festival de Havana em dezembro, e chegou a ser anunciada na programação oficial, mas o governo determinou o cancelamento da sessão. Em março, a produção sofreu uma nova retaliação ao ser retirada da mostra competitiva do Havana Film Festival de Nova York (foi mantido no evento, mas fora de competição).

Em entrevista coletiva cedida em Fortaleza, Lechuga e a produtora Claudia Calviño relataram o que ocorreu na trajetória do filme. Eles esclareceram que continuam a trabalhar com cinema em Havana e não sofreram nenhum tipo de perseguição pessoal, punição ou castigo além da proibição de mostrar a obra, já apresentada em cidades como Chicago, Seattle, Miami, San Sebástian, Toronto, Zurique, Genebra, Cartagena e Guadalajara.

Ambientado em 1983, Santa y Andrés retrata a crescente relação de afeto entre um escritor homossexual, que vive em liberdade condicional em uma casa isolada, e uma mulher a serviço do governo encarregada de vigiá-lo. Ele foi preso e depois passou a ser fiscalizado porque sua obra não se encaixava nos valores definidos pelo governo de Fidel Castro. É uma história de ficção, livremente inspirada em casos reais vividos por artistas cubanos que foram perseguidos, como o poeta Reynaldo Arenas, interpretado por Javier Bardem no filme Antes do anoitecer (2000), do norte-americano Julian Schnabel.

Segundo os realizadores, o longa-metragem foi todo filmado com autorizações oficiais, sem filmagens clandestinas. Lechuga garante que nunca escondeu o roteiro e nem fez alterações no projeto anteriormente apresentado. O cineasta acredita que a obra final não foi analisada pelos censores com a devida atenção. Ele também fez questão de esclarecer que recebeu todo o apoio do Festival de Havana e que a proibição veio diretamente do governo (e não dos responsáveis pelo evento).

Carlos Lechuga
Carlos Lechuga, o diretor, em debate no Cine Ceará

Ao censurar Santa y Andrés, o governo cubano demonstra que tem algo a esconder sobre o período retratado. A proibição, entretanto, proporcionou ainda mais repercussão para o filme, que evita uma abordagem maniqueísta ao humanizar os representantes dos dois lados do conflito político-ideológico com uma construtiva complexidade, sem incorporar um tom de denúncia, atendo-se ao desenvolvimento emocional dos personagens.

"Filmar em Cuba é uma loucura. Apenas pessoas loucas conseguem fazer um filme independente na ilha", afirmou Claudia Calviño. Em 2013, ela participou de uma reunião com profissionais do audiovisual do país que apresentaram uma série de reinvidicações ao governo. "Fiquei otimista naquele momento, mas hoje sou pessimista. Nada do que reinvidicamos foi atendido e as dificuldades só aumentaram", constatou a produtora na coletiva em Fortaleza, diante da plateia formada por jornalistas brasileiros, chilenos, argentinos e peruanos.

A reunião mencionada por Claudia foi coordenada por Fernando Perez, o mais consagrado cineasta cubano atualmente em atividade no país. Ele não veio pessoalmente ao Cine Ceará, mas participou do festival com o longa-metragem Últimos dias em Havana, exibido na noite de quinta (10/8). O filme, produzido com apoio do órgão governamental Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (Icaic), faz um retrato exótico do país, com personagens sempre extravagantes e sem críticas pesadas ao regime.

Um outro caso de censura ocorreu este ano, em junho, no Festival de Annecy, na França. O longa-metragem de animação Have a nice day, de Jian Liu, foi retirado da programação por pressão do governo chinês. Caso desobedecesse, o diretor correria o risco de ser preso, como já ocorreu com o artista Ai Weiwei. O filme, entretanto, já havia participado do Festival de Berlim e foi liberado em outros países.

No Brasil, o caso de perseguição mais recente envolveu o filme pernambucano Aquarius. Depois de protestar contra o governo de Michel Temer no Festival de Cannes, o cineasta Kleber Mendonça Filho passou a ser alvo de falsas acusações e sofreu uma espécie de sabotagem oficial quando tentou concorrer a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Meses depois, a própria Academy of Motion Picture Arts and Sciences, responsável pelo Oscar, o convidou para ser um de seus membros, em uma demonstração de que tinha interesse pelo trabalho do diretor.

JÚLIO CAVANI, jornalista, crítico e realizador. Dirigiu os curtas Deixem Diana em paz (2013) e História natural (2014). Atualmente, é também curador do festival Animage.

* O jornalista viajou a convite do festival, realizado de 5 a 11 de agosto em Fortaleza (CE).

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