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Cobertura

No cinema, como na vida, o real está na travessia

Os dois curtas-metragens pernambucanos em competição no 28º Cine Ceará, "A menina banda" e "Nova Iorque", ancoram suas tramas em personagens infantis prestes a atravessar momentos cruciais

TEXTO LUCIANA VERAS, DE FORTALEZA*

10 de Agosto de 2018

Em

Em "A menina banda", a infância é uma cacofonia a simular a contradição dos sentimentos

Foto Frame do curta/Breno Cesar/Divulgação

FORTALEZA – Há um trecho de Grande sertão: veredas, obra-prima de João Guimarães Rosa (1909-1967) publicada em 1956 que segue a nos iluminar como um farol, em que fica evidente a predileção do autor pela jornada em si. Sim, existem outras centenas, milhares até, de excertos desse livro incrível que poderiam ser destacados, porém esse talvez resuma a ideia de “travessia” defendida por Guimarães Rosa: "A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, em mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".

Por coincidência (ou não, já que para o jagunço Riobaldo, o protagonista inventado por Guimarães, tudo há de ser obra de Deus ou do Diabo no meio da rua, no redemoinho), neste fim de semana que marca o término do 28º Cine Ceará - Festival ibero-americano de cinema, a adaptação teatral de Bia Lessa para Grande sertão: veredas será encenada duas vezes em Fortaleza. Sinal das energias energias, alguns irão dizer... Decerto é um signo de alento, nos convulsionados tempos atuais do Brasil, que uma mesma cidade possa ser "invadida" pela arte em seu estado bruto, propondo reflexões no teatro e no cinema e convidando a uma travessia. 

Este convite foi feito, também, pelos dois curtas-metragens pernambucanos que participaram da mostra competitiva nestes dias de exibições no Cine São Luiz. Numa convergência feliz, A menina banda, de Breno César, e Nova Iorque, de Leo Tabosa, ancoravam suas narrativas em personagens infantis em um momento-chave de suas vidas... Ante a tal travessia de Guimarães Rosa, que, cedo ou tarde, apresenta-se para qualquer um de nós. Breno César, fotógrafo do seriado A lama dos dias, estreia na direção em um projeto que não esconde o componente autoral: ele assina o roteiro, a direção de fotografia e a trilha sonora, em parceria com Guga Rocha. Leo Tabosa também assume de imediato: o curta é baseado em suas memórias afetivas.

"Queria falar de uma chance de acessarmos a própria infância, de juntarmos nossas memórias encandeadas pelo som, mas sem conduzir a narrativa para nada linear", explica Breno acerca de A menina banda. A trama é incomum: uma menina (Sandrilaine dos Santos, bastante expressiva) vira atração na pequena cidade onde mora porque dela se podem ouvir sons. Isso mesmo, sons orquestrados, como se ela carregasse, dentro do seu corpo miúdo, uma banda marcial inteira - elemento típico na paisagem urbana e humana dos municípios do interior de Pernambuco (o curta foi filmado em Amaraji, no Agreste). 

Breno urde sua trama com a paciência de quem entende a importância dos rituais e o manejo de quem percebe o cinema como uma janela para o que é mostrado/dito e também para o que não se diz. No início, o som que se ouve da menina banda é "amorfo, arisco", como se a criança vivesse um pandemônio particular. Aos poucos, à medida que ela se enxerga como parte daquela melodia, os acordes vão abrandando. "Queria que as imagens fossem dançando na cabeça, sabe? Quando você relaxa nas suas memórias e tudo flui", pontua o diretor.

Ao empreender sua travessia, com flertes abertos com uma espécie de realismo mágico, A menina banda leva, a protagonista e o filme, a esse estado de suspensão que o cinema propicia. O mesmo se dá em Nova Iorque, em que Leo Tabosa nos apresenta a Leandro (Juan Calado, uma incrível descoberta), um garoto repartido entre a aspereza da relação com a madrasta (Marcélia Cartaxo, luminosa, sempre firme na composição de suas personagens) e o carinho que nutre, e a delicadeza com quem é acalentado, pela professora (Hermila Guedes, outra preciosidade).

Cena do curta

Leandro sonha com uma canção que toca em um caixinha de músicas e a professora lhe informa: é do musical Cats. Seu gato de estimação, pois, aparece em cena como um animal orquestrado, um títere como se manipulado pelo destino que parece reservar apenas perdas para o menino. "O gato é inspirado no meu próprio gato, assim como o roteiro é um mergulho nas minhas memórias afetivas, nos meus sonhos. A caixinha de músicas, por exemplo, eu ganhei de uma tia minha. Trago no filme também as referências de outras obras que admiro, como Central do Brasil e A história da eternidade", destaca o diretor. 

Muito embora Nova Iorque se estruture dramaticamente também a partir das presenças de Hermila e Marcélia, as duas forças femininas antagônicas a manejar o caminho do menino, é a jornada de amadurecimento de Leandro que constitui o eixo do curta. Nesse sentido, de fato é impossível não lembrar o deslocamento do personagem defendido por Vinicius de Oliveira em Central do Brasil, de Walter Salles, ele também uma criança à procura de (re)conexão com os pais. "Sempre falávamos isso para Juan quando estávamos fazendo os jogos lúdicos de preparação para as filmagens: seu personagem vai crescer durante o filme, ele não vai terminar do mesmo jeito que começou", observa o produtor Arthur Leite.

E quem termina algo do mesmo jeito que começou? É essa uma das lições de Riobaldo em Grande sertão: veredas, é esse um dos modos de encarar, e apreciar, o ato de atravessar. Tanto em Nova Iorque como em A menina banda, a travessia brota em tudo aquilo que se escancara para o espectador, mas sobretudo nas elipses, tão importantes quanto tudo que se revela/desvela nas narrativas e na vida, nunca estanque. 


LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica de cinema da Continente.

* A repórter viajou a convite da organização do evento. 


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