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capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017
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Cena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoCena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/Divulgação

O teatro produzido na Alemanha, nos últimos anos, vem sendo marcado por experimentações estéticas pautadas pela radicalidade de formas e por composições cênicas onde a violência adquire novos papéis. O ser humano em seu pior papel, exposto em cenas impactantes que tentam dar conta do estado atual de nossa sociedade, como o uso excessivo de sangue, entre outros artifícios. Grandes nomes, como os diretores Frank Castorf e Thomas Ostermeier, nos deram provas poéticas, recentemente, em nosso país.

A MITsp 2017 resolveu investir em um nome pouco conhecido do público brasileiro para esta quarta edição: Susanne Kennedy. A grata surpresa da mostra, junto ao Münchner Kammerspiele, um dos teatros mais importantes da Alemanha, trouxe ao Brasil Por que o Sr. R. enlouqueceu?, obra criada a partir do filme de Rainer Werner Fassbinder.

Surpresa por nos apresentar uma linha de trabalho que se distancia dos renomados diretores citados e que parecem definir o modus operandi alemão. Não há como negar a brutalidade existente em Sr. R., entretanto esta é operada por Susanne sob outro víeis. Já não encontramos composições que chocam a maioria dos espectadores, intensa e cortante. A diretora, tal qual o cineasta, procura realizar um compêndio de patologias cotidianas. Blocos de cena marcados pela lentidão, pela fala que parece ser emitida em tons e momentos impróprios, num cenário que pouco sofre modificação.

A base de atuação do espetáculo é construída como se os atores fossem uma espécie de manequins, utilizando-se de máscaras de látex e texto dublado, além de dialogar com os postulados de Gordon Craig. Navega no estreito limite entre realidade e artificialidade do ser e estar em cena, compreendendo também que características “demasiadamente humanas” podem ser obstáculos à expressividade mais profunda.

Ainda que não seja perceptível a rigidez do treinamento preconizada por Craig ou de outros pesquisadores, como o mímico e ator francês Étienne Decroux, Susanne parece também pensar sobre a definição deste último para sua encenação: uma “marionete evocada de nossos sonhos não deverá fazer rir ou enternecer, como fazem os brinquedos de uma criança pequena. Deverá inspirar terror e piedade, e dali elevar-se até o sonho”.

E assim, acaba por nos suscitar a ideia de que ao pensarmos na macroestrutura, toda nossa sociedade encontra-se em estado de marionetes, principalmente em relação ao capital e suas demandas cotidianas. Tudo que o Sr. R buscava era um disco, uma música, uma possibilidade de sentir. Nós não?

O ritmo proposto pelo espetáculo parece entediar parte da plateia, ao ver a mesma estrutura proposta ser repetida ao longo de mais de duas horas. Mas que ritmo seria este que estamos acostumados e que tomamos como referência para nosso dia a dia? Não seria a mesma estrutura que a própria Kennedy tece considerações?

A certeza é de que Susanne está atenta a absolutamente tudo, desde o cenário teatral em que vive à sociedade para qual cria, operando, com maestria, entre as frestas de sua percepção.

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