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Cena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoCena de "Sr. r". Foto: Guto Muniz/Divulgação

O teatro produzido na Alemanha, nos últimos anos, vem sendo marcado por experimentações estéticas pautadas pela radicalidade de formas e por composições cênicas onde a violência adquire novos papéis. O ser humano em seu pior papel, exposto em cenas impactantes que tentam dar conta do estado atual de nossa sociedade, como o uso excessivo de sangue, entre outros artifícios. Grandes nomes, como os diretores Frank Castorf e Thomas Ostermeier, nos deram provas poéticas, recentemente, em nosso país.

A MITsp 2017 resolveu investir em um nome pouco conhecido do público brasileiro para esta quarta edição: Susanne Kennedy. A grata surpresa da mostra, junto ao Münchner Kammerspiele, um dos teatros mais importantes da Alemanha, trouxe ao Brasil Por que o Sr. R. enlouqueceu?, obra criada a partir do filme de Rainer Werner Fassbinder.

Surpresa por nos apresentar uma linha de trabalho que se distancia dos renomados diretores citados e que parecem definir o modus operandi alemão. Não há como negar a brutalidade existente em Sr. R., entretanto esta é operada por Susanne sob outro víeis. Já não encontramos composições que chocam a maioria dos espectadores, intensa e cortante. A diretora, tal qual o cineasta, procura realizar um compêndio de patologias cotidianas. Blocos de cena marcados pela lentidão, pela fala que parece ser emitida em tons e momentos impróprios, num cenário que pouco sofre modificação.

A base de atuação do espetáculo é construída como se os atores fossem uma espécie de manequins, utilizando-se de máscaras de látex e texto dublado, além de dialogar com os postulados de Gordon Craig. Navega no estreito limite entre realidade e artificialidade do ser e estar em cena, compreendendo também que características “demasiadamente humanas” podem ser obstáculos à expressividade mais profunda.

Ainda que não seja perceptível a rigidez do treinamento preconizada por Craig ou de outros pesquisadores, como o mímico e ator francês Étienne Decroux, Susanne parece também pensar sobre a definição deste último para sua encenação: uma “marionete evocada de nossos sonhos não deverá fazer rir ou enternecer, como fazem os brinquedos de uma criança pequena. Deverá inspirar terror e piedade, e dali elevar-se até o sonho”.

E assim, acaba por nos suscitar a ideia de que ao pensarmos na macroestrutura, toda nossa sociedade encontra-se em estado de marionetes, principalmente em relação ao capital e suas demandas cotidianas. Tudo que o Sr. R buscava era um disco, uma música, uma possibilidade de sentir. Nós não?

O ritmo proposto pelo espetáculo parece entediar parte da plateia, ao ver a mesma estrutura proposta ser repetida ao longo de mais de duas horas. Mas que ritmo seria este que estamos acostumados e que tomamos como referência para nosso dia a dia? Não seria a mesma estrutura que a própria Kennedy tece considerações?

A certeza é de que Susanne está atenta a absolutamente tudo, desde o cenário teatral em que vive à sociedade para qual cria, operando, com maestria, entre as frestas de sua percepção.

"Avante, marche!". Foto: Nereu Jr./Divulgação"Avante, marche!". Foto: Nereu Jr./Divulgação

Era para ser um início formal, como sempre é. Era para ser um microfone aberto para patrocinadores, apoiadores e representantes de instituições que regem a política cultural de nosso país, estado, município. Isso mesmo! Um microfone aberto para aqueles que, provavelmente nos meses anteriores, enlouqueceram os organizadores do evento com negativas, tratativas cansativas pautadas por impossibilidades e reduções de orçamento em nome da tão falada crise.

Mas parecem ter chegado a um acordo. Seja pouco, seja muito, chegaram a um acordo. Assim como parecia chegado o momento de fazermos a cena em que nenhuma tensão ocorreu e louvarmos a batalha de ter colocado o festival de pé. Textos prontos, bem-redigidos, talvez ensaiados na frente do espelho. Era pra ser.

Esqueceram de avisar o público, os artistas. Esqueceram de lembrar que os tempos são outros, que estamos praticamente sob um estado de exceção. O Theatro Municipal de São Paulo, palco visto como "sagrado" por muitos, já não impressiona. Os ternos, a elegância e as ditas boas regras de educação já não limitam este organismo vivo. Estamos feridos, mas em marcha!

ABERTURA
Um dos maiores eventos das artes cênicas do país realiza sua abertura, numa terça à noite (14/3), e os titulares da pasta da cultura nas esferas federal, estadual e municipal não comparecem. A questão é simples: o que teria de tão importante acontecendo no país neste dia, que justificasse suas ausências? Ou seria só uma demonstração de covardia por já esperarem as vaias que foram dirigidas aos seus representantes enviados?

Não é tempo para termos certeza de muitas coisas, a não ser a de que estamos em marcha. Só cabe relatar que a quarta edição da MITsp começou assim: sob gritos, pulsão; sob vida; sob vozes que não querem mais calar.

Obra foca na vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoObra foca na vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais. Foto: Guto Muniz/Divulgação


Quanto ao 
Avante, marche!, escalado para a abertura do evento, seria quase impossível tecer quaisquer considerações sobre o espetáculo sem este maravilhoso prólogo onde tensionamentos políticos foram evidenciados. Ainda mais quando a obra propõe olhar para a vida de um coletivo a partir de uma orquestra de metais, buscando manter-se num único e distinto andamento. Em meio a isso, a metáfora de um trombonista que, por conta de sua doença, precisa se despedir do seu instrumento musical. A agonia deste é grande. Ele está ferido, estamos também feridos, mas marcharemos!

Os diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, juntamente com o compositor Steven Prengels, nos apresenta uma cena polifônica, fundindo música, dança, teatro e performance. Esta polifonia da companhia les ballets C de la B explode, inclusive, na composição textual do trabalho, utilizando-se de diferentes línguas durante a obra. Uma espécie de torre de babel: nosso tempo.

POLÍTICA
O espectador contemporâneo exige uma renovada relação social, cultural e política para o evento artístico. Já não temos como deixar de fora do espaço teatral nossas questões mais urgentes. A fala de Haifa Madi, representante do Ministério da Cultura, que foi completamente abafada pela plateia, é um retrato disso. O novo protesto feito pós-espetáculo realizado pelos músicos da Banda Sinfônica de São Paulo que temem o desmonte deste órgão sob a nova gestão do prefeito gari/pedreiro/ciclista também. A paralisação nacional dos trabalhadores um dia após esta abertura corrobora com estas vozes. Houve e haverá muitas marchas. É só o começo.

No Theatro Municipal, abertura foi de protesto, no lugar das formalidades. Foto: Nereu Jr./DivulgaçãoNo Theatro Municipal, abertura foi de protesto, no lugar das formalidades. Foto: Nereu Jr./Divulgação

Chilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/DivulgaçãoChilenos retornam ao Brasil com o recente "Mateluna", que parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna. Foto: Felipe Fredes/Divulgação

Nesta terça-feira (14/3), tem início um dos eventos mais esperados no campo das artes cênicas de nosso país: a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que chega à sua quarta edição. No período de uma semana (até 21/3), o público brasileiro poderá se deparar com um importante recorte do que vem sendo produzido mundo afora, a partir da evidência de pautas urgentes a serem discutidas.

Ainda que a abertura da mostra tenha ficado a cargo do grandioso espetáculo Avante, marche!dos diretores belgas Alain Platel e Frank Van Laecke, acredita-se que estarão nos espetáculos de menor porte a potência desta edição. A propósito, o Avante, marche! tem o trabalho do compositor Steven Prengels (companhia les ballets C de la B), através do qual quatro atores e sete músicos serão acompanhados por 18 instrumentistas brasileiros (ver programação AQUI).

Um dos nomes mais esperados é o do libanês Rabih Mroué, ator, dramaturgo e artista visual que estará na MITsp com três obras. Na primeira, intitulada Revolução em pixels (Pixelated revolution), o próprio artista investiga, a partir de imagens de Youtube, numa espécie de palestra não acadêmica, as muitas questões que cercam a gravação dos manifestantes sírios, de sua própria realidade, para o resto do mundo. Em Tão pouco tempo (So little time), cabe à atriz Lina Majdalanie, esposa de Rabih, discutir sobre o fascínio por imagens de líderes mortos, muitas vezes mais interessantes do que quando estão vivos. Por último, em Cavalgando nuvens (Riding on a cloud), o ator Yasser Mroué, irmão de Rabih, constrói uma biografia, entremeada pela realidade política, pelas memórias, pelos fatos e pela ficção, carregando sequelas da violência, tão comuns a tantos outros indivíduos no Líbano.

Outro importante nome do teatro político mundial, o chileno Guillermo Calderón retorna ao Brasil com seu mais recente trabalho, Mateluna(Mateluna). Numa espécie de continuação de sua obra anterior, Calderón parte da história do guerrilheiro Jorge Mateluna, que colaborou com a criação de Escuela, apresentada na MITsp de 2014. Logo depois, ele foi preso pela polícia, acusado de estar envolvido em um assalto a banco e condenado a 16 anos de prisão.

NEGROS

Ntando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele na performance "Black off". Foto: Janosch Abel/Divulgação

O protagonismo negro também entra na pauta da mostra, com três obras compondo um importante painel sobre o tema: as estreias nacionais de
A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa, com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol, com dramaturgia e direção de Alexandre Dal Farra.

Abordando os estereótipos racistas e questionando se existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou se elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero no que quer que façam, a performance-concerto Black off(Black off), da atriz, cantora e performer Ntando Cele, de Durban, na África do Sul, promete longas filas no Itaú Cultural, sendo este o único espetáculo com distribuição gratuita de ingressos.


Integra também esta proposição de olhar a realização do seminário Discursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, com a presença de pensadoras de distintas áreas do conhecimento a refletir sobre os desdobramentos da escravidão negra e as formas do racismo no Brasil e no mundo.

Pernambuco estará presente na mostra com o lançamento da TREMA! Revista de Teatro, edição do Negro. Os artigos foram escritos por pensadores que participam das mesas de debate do seminário, como Giovana Xavier e a norte-americana Patricia Hill Collins.

Estas últimas ações apontam para o importante espaço dedicado pela MITsp ao campo formativo, seja através do Olhares Críticos, sob a curadoria de Luciana Romagnolli e Kil Abreu, com propósito de refletir sobre as dimensões públicas da crise e formas de resistência; seja pelas Ações Pedagógicas, sob a curadoria de Maria Fernando Vomero, iniciadas antes mesmo da mostra de espetáculos.

O acesso às atividades formativas é gratuito, enquanto que os ingressos para os sete espetáculos internacionais, inéditos no Brasil, esgotaram-se pouco tempo depois de serem colocados à venda, restando poucos lugares para os nacionais.

A Revista Continente mais um ano dedicará espaço exclusivo para cobertura de toda a MITsp. Avante!

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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