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Ricardo Araújo Pereira, escritor e humorista d'além-mar. Foto: Vitorino Coragem/DivulgaçãoRicardo Araújo Pereira, escritor e humorista d'além-mar. Foto: Vitorino Coragem/Divulgação
Parece piada, mas aconteceu de verdade. Quando o escritor e humorista português Ricardo Araújo Pereira embarcava em Lisboa para participar da
Festa Literária de Paraty (Flip) no ano passado, deveria ter trazido na mala um livro para lançar no Brasil. Era uma espécie de manual de escrita humorística, com o curioso título de A doença, o sofrimento e a morte entram num bar.

Só que o livro não veio. Apesar de já ter editora, mote, título e até os capítulos prontos, faltou justamente escrevê-lo, ó pá. Mas, como ele mesmo lembra, “comédia é igual a tragédia mais tempo”; ou "comédia é igual a tragédia mais tempo mais distância”. Depois de quase um ano, Ricardo finalmente vem lançar a obra no Brasil, numa bela edição da Tinta da China. Serão dois eventos: um no Rio de Janeiro, nesta terça (16/5), às 18h30, na Livraria Cultura do Centro, e outro em São Paulo, na quarta-feira (17/5), às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, que terá um bate-papo do autor com o cronista brasileiro Antonio Prata.

Comentarista esportivo, cronista político, criador do Gato Fedorento, grupo de humor mais famoso de Portugal, e agora também colunista no jornal Folha de S. Paulo, Ricardo é um popstar d’além-mar. Há alguns anos (e de maneira segura) vem formando seu público brasileiro, que tem na primeira fileira nomes como Luis Fernando Verissimo e Gregorio Duvivier. Este é o segundo livro que lança no país – o primeiro, também pela Tinta da China, foi a coletânea de crônicas Se não entenderes eu conto de novo, ó pá. Ricardo é também o curador da coleção Clássicos da Literatura de Humor da editora, com títulos que vão de Diderot a Charles Dickens.

Na corajosa missão de escrever um guia de escrita do humor, portanto, o autor tem a seu favor o fato de já fazer rir a um país inteiro. E como são poucos os humoristas que escrevem sobre o gênero, e menos ainda os que o fazem sem cair na digressão imediata sobre “quais são os limites do humor”, este acaba sendo o primeiro mérito de A doença, o sofrimento e a morte...: o que Ricardo nos conta é menos o que acha e mais o que aprendeu, de fato, na lida de provocar gargalhadas.

Para fazer essa análise, ele desmonta a estrutura do texto de humor em capítulos que analisam cada um dos seus pilares: a oposição, a imitação, a inversão, o exagero, a mudança de lugar e a repetição. Em cada um, Ricardo esmiúça exemplos que vão da Bíblia a Woody Allen, de Shakespeare a Jacques Tati, de Molière a Machado de Assis, de Monty Python a... Chico Buarque. Isso mesmo, Chico Buarque. A própria seleção de exemplos segue à risca uma das primeiras lições do livro: como surpreender o leitor invertendo a lógica natural das coisas. Onde mais Chico Buarque seria usado como exemplo de texto de humor?

Ricardo pescou na obra do compositor brasileiro um bom truque (as trocas de proparoxítonas na letra de Construção) para introduzir o capítulo em que mostra como a “mudança de lugar” dos elementos de um texto pode ser estratégica para o riso. Outro exemplo brasileiro que o autor pinça com maestria para ilustrar o mesmo argumento: o excerto do conto Histórias comuns, de Machado de Assis, em que o narrador se revela não como um ser humano, como a trama induz, mas como um alfinete que cai na copa de um chapéu.



É outro traço que torna este um livro imperdível: a rica lista de exemplos que ilustram cada argumento. Se “a filosofia deu pouca atenção ao humor”, como alega Ricardo, ao listar os poucos autores que se aprofundaram no tema (Platão, Sócrates, Thomas Hobbes, Kant, Schopenhauer e Freud), os exemplos que ele domina são diversos e inesperados. Como no capítulo em que fala sobre a subversão da lógica natural das coisas, outro dos artifícios do humor. Ricardo tira do bolso uma história escrita à mão por Fernando Pessoa e que foi encontrada dentro da arca deixada pelo poeta na sua morte, um bilhete muito insuspeito:

Temos ouvido muitas historias tristes a respeito de creanças, mas nenhuma [tão] dolorosa [como a] que aconteceu ao grande philantropo inglez Neverwas, amigo dedicado dos pequeninos. Passeava elle uma vez á noitinha n’uma estrada quando viu, ao pé d’uma arvore uma creança agachada, parecendo escondida ou querer esconder-se. Avançou para ella. 'Quem és tu? Como te chamas, pequenino?', perguntou. 'José', respondeu a creança que parecia atrapalhada. 'Tens pae, Josésinho?' 'Não senhor.' 'E mãe?', 'Também não.' 'Então com quem vives?' 'Com uma tia minha.' O philantropo adivinhou a história; uma tia má. 'E a tua tia trata-te bem?' 'Às vezes.' 'Bate -te?' 'Às vezes.' 'Ah, fugiste-lhe?' 'Não senhor.' 'Então o que fazes, aqui?' 'Estou cagando'”.

O terceiro motivo para ler o livro é, naturalmente, as gargalhadas que se dá. “O humor é um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas”, simplifica Ricardo, convencendo o leitor de que, se todos rimos, todos também podemos fazer rir.

Não fosse tão bem-escrito, poderia até dividir prateleiras nas livrarias com os livros de auto-ajuda. Impossível não notar mais situações cômicas ao redor depois de ler o inventário de Ricardo
e começar a rir de si mesmo, o que o autor também faz o tempo todo no livro. “Talvez as pessoas que fazem do humor uma segunda natureza sejam mais frágeis do que as outras, tenham maior dificuldade em lidar com as asperezas do mundo. O humor seria uma estratagema inventada que lhes permite assistir à vida através de um refúgio.”

Infelizmente, e talvez esse seja o único demérito da obra, estas reflexões sobre as estratagemas do humor e seus excelentes exemplos sejam curtas demais: com apenas 120 páginas, lê-se o livro num instante e logo se acaba, como um show de humor que não tivesse nenhuma esquetezinha de bis.

LEIA TRECHO DO LIVRO
A doença, o sofrimento e a morte entram num bar

Esta é a minha hipótese: humor, ou sentido de humor, é, na verdade, um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas. É raro, não porque se trate de um dom oferecido apenas a alguns escolhidos, mas porque esse modo de olhar e de raciocinar é bastante diferente do convencional (às vezes, é precisamente o oposto), e a maior parte das pessoas não tem interesse em relacionar-se com o mundo dessa forma, ou não pode dar-se a esse luxo. Somos treinados para saber o que as coisas são, não para perder tempo a investigar o que parecem, ou o que poderiam ser.

Essa disposição particular implica uma noção de jogo quase (ou completamente) infantil com as coisas — e connosco próprios. Trata-se de entender as pessoas, os objectos, as ideias, a linguagem como brinquedos, feitos de peças que é possível organizar de outra forma, acrescentar, subtrair, deformar, virar ao contrário, pôr noutro sítio. Os capítulos que se seguem dedicam-se ao exercício um pouco ridículo de discutir certos aspectos de algumas dessas experiências infantis.”

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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