×

Aviso

Please enter your DISQUS subdomain in order to use the 'Disqus Comments (for Joomla)' plugin. If you don't have a DISQUS account, register for one here

Maria Thereza Alves é artista visual e vive na Alemanha. Acima, em exposição nos Emirados ÁrabesMaria Thereza Alves é artista visual e vive na Alemanha. Acima, em exposição nos Emirados Árabes

Em setembro de 2016, sob o tema Incerteza viva e com curadoria de Jochen Volz, a 32ª Bienal de São Paulo ocupou o Pavilhão do Ibirapuera e, a partir de vários trabalhos, amplificou o debate sobre a representatividade indígena na arte e na cultura contemporâneas. Havia, no terceiro pavimento, por exemplo, um enorme espaço dedicado aos trabalhos da ONG Vídeo nas Aldeias, que, desde meados da década de 1980, trabalha com produção audiovisual e com a possibilidade de oferecer aos indígenas a chance de eles mesmos orquestrarem suas narrativas.

Um dos conjuntos mais impactantes, contudo, era aquele formado pela obra Uma possível reversão de oportunidades perdidas. Nela, a artista visual Maria Thereza Alves, brasileira há muito radicada na Alemanha, dispunha cartazes de diversas conferências ministradas por especialistas e acadêmicos indígenas, que, na realidade, nunca são protagonistas. Detalhe crucial: todos aqueles debates eram fictícios. Ou seja, mesmo ostentando datas anteriores à abertura da 32ª Bienal, os cartazes se referiam a eventos fantasiosos, quase como a destruir a certeza com a qual geralmente se ladeia o passado.

Havia, neste trabalho e em toda a trajetória da artista, a crítica à maneira como são vistos os povos originários do Brasil. Em O artista como bandeirante (2014) e Dicionário Krenak – Português/Português – Krenak (2009-2010), Maria Thereza questiona o tratamento negligente que o Estado brasileiro reserva aos indígenas. No primeiro vídeo, ela dá voz a duas lideranças indígenas – Jera Guarani e Poty Poran, da etnia Guarani – para que elas comentem a noção “do artista como bandeirante”; no segundo, a partir do encontro com a etnia Krenak, em Minas Gerais, e de sua participação como tradutora e, em especial, como restauradora da tradição linguística do povo outrora conhecido como “botocudo”, ela criou um léxico que nunca, sob hipótese alguma, poderá ser folheado pelos não indígenas. A obra, mostrada na exposição A queda do céu, com curadoria do pernambucano Moacir dos Anjos (Paço das Artes, 2015), é emoldurada com um cadeado.

Em entrevista por e-mail à Continente, Maria Thereza Alves falou sobre sua busca por aumentar os espaços de representação e interlocução indígenas e assim resumiu o que, para ela, significa a resistência e a luta dos povos originários: “O único futuro que o Brasil pode ter, já que todo o resto é uma cópia ruim da Europa”.

Obra apresentada pela artista na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016Obra apresentada pela artista na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016

CONTINENTE Como percebe a representação - ou ausência dela - dos indígenas na cultura brasileira?
MARIA THEREZA ALVES Existe, sem dúvida, o vácuo da presença indígena, por vezes deliberado, nas histórias do que nós agora chamamos Brasil, mas também subconscientemente, até mesmo nos históricos familiares. Quando você senta ao redor de uma mesa, olhando fotografias de família, os integrantes mais bracos, com os olhos mais claros, serão saudados por ter nascido dessa forma, e não haverá menção alguma a qualquer ancestral nascido com “olhos rasgados”… uma percepção bem diferente do ser, ao invés dos “olhos azulzinhos”. Na semana retrasada, numa reunião familiar, um primo anunciou que finalmente teremos uma criança de olho azul na família. Qualquer representação pública dos povos indígenas, feita por não indígenas, é péssima. Entre no escritório de alguém solidário aos povos originários e você estará propenso a ver a imagem de um nativo com uma câmera de vídeo… Brasileiros ainda parecem estar presos no século XVI no que se refere aos povos indígenas – no modo como eles percebem as etnias indígenas e, infelizmente, também na impunidade, ao continuar o genocídio dos povos originários e o roubo das terras indígenas.

CONTINENTE Ao longo da sua trajetória artística, como buscou aumentar esses espaços de representatividade? Por quê?
MARIA THEREZA ALVES Eu tenho ancestrais indígenas e, por ter sido uma das primeiras da minha família a cursar uma universidade, sempre me perguntei qual seria o melhor uso para isso no Brasil. Estávamos em 1978, no meio da ditadura militar, e havia diversas lutas de terra acontecendo no país. Havia Ângelo Cretã, o líder Kaingang, em Mangueirinha, no Paraná, que seria assassinado em 1980, e Marçal Tupa-y, líder Guarani do Mato Grosso do Sul, que seria assassinado em 1983. Mas não havia uma organização indígena nacional que pudesse dar auxílio e coordenar todos esses esforços nacionalmente. Então, eu decidi aprender como uma pessoa poderia construir uma organização como essa. Morava em Nova York, para onde minha família havia se mudado por causa da ditadura, e comecei a trabalhar com o International Indian Treaty Council. Denunciei a violação dos direitos indígenas perpetrada pelo governo brasileiro na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas em 1979, em Genebra. Em 1980, conheci Marçal Tupa-y, que se tornaria um valioso mentor. No Brasil, fiquei perplexa com a massiva negação dos nativos, ao ponto de que as pessoas me questionariam sobre a minha herança japonesa (que não existe) com o intuito de polidamente evitar a menção à possibilidade da herança indígena. As Américas são indígenas e essa é a nossa cultura; tudo o que resta é importado, mas ainda assim nós constantemente acolhemos tudo que é europeu e até preferiríamos remover nossas dobras epicânticas dos nossos olhos e cortar fora nossos narizes se eles fossem achatados.

 

"Brasileiros ainda parecem estar presos no século XVI no que se refere aos povos indígenas – no modo como eles percebem as etnias indígenas e, infelizmente, também na impunidade, ao continuar o genocídio dos povos originários e o roubo das terras indígenas."

 

CONTINENTE Quais as inquietações e os posicionamentos - políticos, artísticos, éticos - que impulsionam obras como Dicionário Krenak-Português/Português-Krenak (2009/2010) e Uma possível reversão de oportunidades perdidas (2016)?
MARIA THEREZA ALVES Durante a filmagem em vídeo da narrativa ficcional Iracema (de Questembert), na aldeia Resplendor em Minas Gerais, Tam Krenak, irmão da atriz principal, Shirley Krenak, me deu uma cópia impressa de um dicionário em Krenak e alemão, feito por Rudolph Bruno (publicado em 1909). Tam me pediu para traduzir porque havia muitas palavras em Krenak que não eram mais usadas, devido à longa campanha genocida promovida pelos portugueses, e depois pelos brasileiros, contra os Krenak. Se muitas pessoas morrem, torna-se difícil manter a riqueza de uma linguagem. As Nações Unidas têm uma estatística: se 10% de uma população são mortos, um profundo genocídio cultural também resulta. No Brasil, 98% dos indígenas foram mortos. O dicionário foi traduzido com a assistência da Academia Maumaus em Lisboa e é para ser usado pela comunidade Krenak para fins educativos. Shirley Krenak solicitou que a nenhum brasileiro seja permitida a leitura do dicionário traduzido, já que, ao longo dos últimos 500 anos, os brasileiros só quiseram matar Krenaks, e não falar com eles. O dicionário, portanto, deve ser mostrado em uma vitrine com um cadeado.

Dicionário foi exposto na mostra "A queda do céu". Foto: Paço das Artes/DivulgaçãoDicionário foi exposto na mostra "A queda do céu". Foto: Paço das Artes/Divulgação

CONTINENTE
Em O artista como bandeirante (2014), você opta por dar voz a duas lideranças indígenas. Em Uma possível reversão..., brinca com a invisibilidade a que são relegadas lideranças indígenas, que na obra viram protagonistas de seminários e conferências fictícios. Como escolhe os dispositivos e os formatos para tratar das questões que pretende explicitar nas obras?
MARIA THEREZA ALVES Eu trabalho com fotografia, vídeo, escultura, pintura e também em poesia ou prosa. Durante o processo de feitura do trabalho, tudo naturalmente se encaixa no seu devido lugar.

 

"As Nações Unidas têm uma estatística: se 10% de uma população são mortos, um profundo genocídio cultural também resulta. No Brasil, 98% dos indígenas foram mortos."


CONTINENTE Uma possível reversão... também fala do apagamento dos índios - apagamento de suas terras, de sua cultura e até mesmo da sua existência. A arte, para você, é um caminho para evitar que esse apagamento se alastre e que a queda do céu se concretize?
MARIA THEREZA ALVES Arte é como qualquer outra parte da vida, especialmente da minha vida; assim, tudo que fazemos deve estar no sentido da libertação.

CONTINENTE O que é ser índio no Brasil de hoje?
MARIA THEREZA ALVES É a prova viva da efetividade da resistência indígena.

CONTINENTE Como resistir ante a perda de terras? Como preservar a cultura e a memória das tribos?
MARIA THEREZA ALVES É preciso resistir de toda maneira possível. A sociedade brasileira tem que parar o genocídio contra os povos indígenas.

CONTINENTE Diante de tudo isso, o que significa a luta indígena?
MARIA THEREZA ALVES O único futuro que o Brasil pode ter, já que todo o resto é uma cópia ruim da Europa.

Assista ao vídeo O artista como bandeirante:


capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

banner documenta14 sidebar V2

banner Suplemento 316x314

publicidade revista

Facebook

SFbBox by casino froutakia